sábado, 22 de dezembro de 2007

Sálù bá Nàná Burúkú - Nós refugiaremos com Nàná da morte ruím


Nàná é um vodun (orixá) da nação Gêge, de tempos imemoriais. Está associada aos mitos da criação da Terra, sendo a precursora de todas as divindades que têm o poder de gerar a vida. É o lado feminino dos criadores do mundo.Grande Senhora das terras molhadas e fecundas, com a qual foram criados todos os seres, reina na lama, que formou a Terra, nas águas paradas e pântanos.Ao mesmo tempo em que dá vida às criaturas, faz com que retornem ao seu elemento de origem para, mais tarde, renascerem na Terra, formando o ciclo da vida e da morte. Por isso, nós acreditamos que o corpo, após a morte, deve ser devolvido à terra, de onde ele saiu um dia.Nanan, pelo fato de ser um dos primeiros orixás criados por Olorun, é caracterizada como uma anciã, ou uma avó. Novamente, caímos no erro de comparar uma energia sobrenatural, que é o orixá, com simples mortais, atribuindo-lhes uma idade cronológica humana. É guardiã do reinado dos eguns e ancestrais, assim como seu filho Obaluayê, usando o ibirin (espécie de bastão ritual com a ponta curva, confeccionado com palha da costa e búzios) como elemento controlador e genitor.Sua existência vem de tempos remotos, anteriores à descoberta do ferro, por isso, em seus rituais, não devem ser utilizados objetos cortantes de metal.Nunca devemos evocá-la sem um motivo muito forte. Mesmo seus próprios filhos. É um orixá muito poderoso e de tendência devastadora, quando provocado. Seus preceitos são extremamente complexos e ricos em detalhes. Se o babalorixá não tiver perícia e conhecimento, poderá cometer erros que serão fatais, tanto para ele como para o iniciado. Raramente um filho de Nanan é incorporado por sua energia, sendo que suas aparições nos terreiros têm um intervalo mínimo de três anos. Quando alguém a incorpora, deve-se interromper o xirê para saudá-la em especial. Coloca-se, em suas mãos, um cajado de ponta curva, recoberto de búzios, e uma base de palha desfiada, com o qual ela insinua uma varredura do ambiente, limpando-o de todas as más influências. Se a noviça não estiver paramentada com as roupas rituais, amarra-se um torço na cabeça, juntamente com algumas folhas especiais de Nanan (mamona, flor da noite, etc.), recobrindo os olhos. Os voduns Gêges não costumam revelar seu rosto.Os fundamentos necessários para louvar esse orixá pertencem à cultura Gêge. Mesmo que existam filhos de Nanan em outras nações, todos os preceitos devem ser feitos dentro dos rituais desta nação.Nanan vive nas madrugadas, quando o orvalho umedece a terra. Por isso, só aceita oferendas em sua homenagem após as três horas da manhã, quando o sol ainda não se levantou. O babalorixá não deve deixar esses ebós à mostra, e deverá abandonar o local dos rituais rapidamente, pois existe o risco de aparecerem cobras perto da comida.Os búzios também fazem parte de seus paramentos, ornando seu cajado, o ibiri e o brajá.
CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE NANÃ
Nanã Buruku é o arquétipo das pessoas que agem com calma, benevolência, dignidade e gentileza. Das pessoas lentas no cumprimento de seus trabalhos e que julgam ter a eternidade à sua frente para acabar seus afazeres. Elas gostam das crianças e educam-nas, talvez, com excesso de doçura e mansidão, pois têm tendência a se comportarem com a indulgência dos avós. Agem com segurança e majestade. Suas reações bem equilibradas e a pertinência de suas decisões mantêm-nas sempre no caminho da sabedoria e da justiça.
LENDAS DE NANÃ
Disputa entre NANÃ BURUKU e OGUM
Nanã Buruku é uma velhíssima divindade das águas, vinda de muito longe e há muito tempo. Ogum é um poderoso chefe guerreiro que anda, sempre, à frente dos outros Imalés. Eles vão, um dia, a uma reunião. É a reunião dos duzentos Imalés da direita e dos quatrocentos Imalés da esquerda. Eles discutem sobre seus poderes. Eles falam muito sobre obatalá, aquele que criou os seres humanos. Eles falam sobre Orunmilá, o senhor do destino dos homens. Eles falam sobre Exú: "Ah! É um importante mensageiro!" Eles falam muita coisa a respeito de Ogum. Eles dizem: "É graças a seus instrumentos que nós podemos viver. Declaramos que é o mais importante entre nós!" Nanã Buruku contesta então: "Não digam isto. Que importância tem, então, os trabalhos que ele realiza?" Os demais orixás respondem: "É graças a seus instrumentos que trabalhamos pelo nosso alimento. É graças a seus instrumentos que cultivamos os campos. São eles que utilizamos para esquartejar." Nanã conclui que não renderá homenagem a Ogum. "Por que não haverá um outro Imalé mais importante?" Ogum diz: "Ah! Ah! Considerando que todos os outros Imalés me rendem homenagem, me parece justo, Nanã, que você também o faça." Nanã responde que não reconhece sua superioridade. Ambos discutem assim por muito tempo. Ogum perguntando: "Voce pretende que eu não seja indispensável?" Nanã garatindo que isto ela podia afirmar dez vezes. Ogum diz então: "Muito bem! Voce vai saber que eu sou indispensável para todas as coisas." Nanã, por sua vez, declara que, a partir daquele dia, ela não utilizará absolutamente nada fabricado por Ogum e poderá, ainda assim, tudo realizar. Ogum questiona: "Como voce fará? Voce não sabe que sou o proprietário de todos os metais? Estanho, chumbo, ferro, cobre. Eu os possuo todos." Os filhos de Nanã eram caçadores. Para matar um animal, eles passaram a se servir de um pedaço de pau, afiado em forma de faca, para o esquartejar. Os animais oferecidos a Nanã são mortos e decepados com instrumentos de madeira. Não pode ser utilizada a faca de metal para cortar sua carne, por causa da disputa que, desde aquele dia, opôs Ogum a Nanã.

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