sábado, 22 de dezembro de 2007

Ká wòóo, Ká biyè sí Sango - Saudamos nosso Rei na Terra



Históricamente, Sàngó foi o terceiro Aláàfin de Òyó, Rei de Oyó, filho de Oranian e Torosi, a filha de Elempê, rei dos tapás, aquele que havia formado uma aliança com Oranian. Cresceu no país de sua mãe, indo instalar-se mais tarde em Kòso, onde era rejeitado pela população por ser violento e impetuoso. Contudo, conseguiu impor-se pela força. Em seguida, acompanhado pelo seu povo, dirigiu-se para Oyó, onde estabeleceu um bairro que recebeu o nome de Koso, que com o passar do tempo veio a fazer parte se seus oriki. Dadá Ajaká, filho mais velho de Oranian, irmão consangüíneo de Sàngó, reinava então em Oyó. Mas não tinha a energia de um verdadeiro chefe daquela época. Por isso foi destronado por Sàngó, exilando-se em Igboho, durante os sete anos de reinado de seu meio irmão. Depois que Sangó deixou Oyó, Dadá Ajaka voltou a reinar, e dessa vez mostrou-se valente guerreiro, voltando-se contra os parentes da família materna de Sàngó. Sangó é o irmão mais jovem, não somente de Dadá Ajaká, como também de Obaluayé. Entretanto não são vínculos de parentesco que permitem explicar a ligação entre o deus do trovão e o das doenças contagiosas, mas prováveis origens comuns em Tapa. Neste lugar Obaluayé seria mais antigo que Sangó, e por deferência para com o mais velho, em certas cidades como Saketé e Ifanhim sào sempre oferecidas a Obaluayé nas vésperas da celebração das cerimônias para Sángó.Governou com mãos de ferro, sendo, ao mesmo tempo, temido e adorado pelo povo. Muitas vezes comportou-se como tirano, na sua ânsia pelo poder. Alguns relatos afirmam que Xangô destronou seu próprio irmão, Ajaká, para tomar o seu lugar.Miticamente, Sangó é filho de Oranian, tendo Yamase como mãe e tres divindades como esposas: Oya, Òsun e Obà. É o orixá das pedreiras, das terras áridas e das rochas. Seu elemento é o fogo, dominando também o raio e o trovão. O metal a que pertence é o cobre.Possui, como símbolo da natureza, a pedra de raio, que se cria quando um raio cai na terra. Sua ferramenta principal é o Oxé, ou machado duplo, simbolizando a imparcialidade na hora da justiça.Xangô detém um profundo conhecimento e ligação com as árvores, de onde provêm muitos de seus objetos de culto, como a gamela e o pilão.Segundo a mitologia africana, um traço marcante desse orixá é o fato de se fazer notar, sendo muito atraente e vaidoso. Ele teve várias uniões com outros orixás, como Oxun, Obá e Oyá, que era sua prima e esposa predileta. Xangô e Oyá são inseparáveis, sendo cultuados conjuntamente. Não se faz oferendas para um sem que se faça para o outro também.Engana-se quem diz que Xangô tenha medo da morte, pelo fato de abandonar a cabeça (ou ori) de seus filhos de santo, pelo menos uns seis meses antes da morte destes. Xangô é poderoso e não tem medo de nada. O que ele não suporta é o frio que emana de um corpo sem vida. Xangô possui a energia do fogo, que irradia calor e possibilita a existência da vida. A morte e o frio são contrários à sua essência.Xangô é um orixá que teve vontade de experimentar a criação divina, ou seja, ele quis nascer e viver aqui na Terra. Como foi dito no início, existiu um rei, na cidade de Oyó, que era muito poderoso, sendo identificado como a energia Xangô.É muito violento, mas nunca gratuitamente. Quando provocado, castiga seus inimigos sem piedade, sendo implacável nas guerras de conquista, atividade que exerce com maestria. Se for necessário, Xangô usa seus poderes de feitiçaria para destruir o inimigo.Como grande amante da justiça, é imparcial em suas ações, usando toda sua autoridade para resolver as mais difíceis questões, tarefa que ninguém gosta de fazer. Sempre podemos recorrer a ele quando nos defrontarmos com questões litigiosas ou problemas jurídicos.Sàngó é viril e atrevido, violento e justiceiro, castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. O símbolo de Sàngó é o machado de duas lâminas estilizado, osé, trazido pelo elégun quando em transe.

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE SANGO

O arquétipo de Xango é aquele das pessoas voluntariosas e enérgicas, altivas e concientes de sua importância real ou suposta. Das pessoas que podem ser grandes senhores, corteses, mas que não toleram a menor contradição, e, nesses casos, deixam-se possuir por crises de cólera, violentas e incontroláveis. Das pessoas sensíveis ao charme do sexo oposto e que se conduzem com tato e encanto no decurso das reuniões sociais, mas que podem perder o controle e ultrapassar os limites da decência.Assim como o orixá, seus filhos são amantes da justiça, agindo com muita imparcialidade, podendo ser excelentes profissionais ligados à área jurídica. Podem também exercer cargos dentro do exército ou do governo, devido às suas qualidades de autoridade e comando.Sabem, como ninguém, administrar seu patrimônio, não deixando que nada escape ao seu controle. Embora não admitam, também gostam de controlar as despesas dos membros de sua família, mas não deixa que nada lhes falte.Fisicamente são fortes, com discreta tendência à obesidade. Geralmente, são de média ou baixa estatura, com estrutura óssea bem desenvolvida e, quase sempre, desprovidos de nádegas.Seus filhos podem ser identificados pelo forte timbre de voz, assemelhando-se ao barulho do trovão.São honestos e sinceros em seus relacionamentos, mas dificilmente fiéis. Têm a fama de mulherengos.Apresentam alta dose de energia, auto-estima e egocentrismo.Possuem uma postura nobre e hábitos aristocráticos, gostando de dar a última palavra em tudo.Enfim, o arquétipo de Xango é aquele das pessoas que possuem um elevado sentido da sua própria dignidade e das suas obrigações, o que as leva a se comportarem com um misto de severidade e benevolência, segundo o humor do momento, mas sabendo guardar, geralmente, um profundo e constante sentimento de justiça.

LENDAS DE SANGO

Xangô, quando viveu aqui na Terra, era um grande Obá (rei), muito temido e respeitado. Gostava de exibir sua bela figura, pois era um homem muito vaidoso. Conquistou, ao longo de sua vida, muitas esposas, que disputavam um lugar em seu coração.Além disso, adorava mostrar seus poderes de feiticeiro, sempre experimentando sua força.Em certa ocasião, Xangô estava no alto de uma montanha, testando seus poderes. Em altos brados, evocava os raios, desafiando essas forças poderosas. Sua voz era o próprio trovão, provocando um barulho ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com essa atitude, ficando ali por muito tempo, impaciente por não obter resposta. De repente, o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. As pessoas ficaram impressionadas com a beleza daquele fenômeno, mas, ao mesmo tempo, estavam apavoradas, pois nunca tinham visto nada parecido.Xangô, orgulhoso de seu extremo poder, ficou extasiado com o acontecimento. Não parava de proferir palavras de ordem, querendo que o espetáculo continuasse. Era realmente algo impressionante!Foi, então, que, do alto de sua vaidade, viu a situação fugir ao seu controle. Tentou voltar atrás, implorando aos céus que os raios, que cortavam a Terra como poderosas lanças, desaparecessem. Mas era impossível - a natureza havia sido desafiada, desencadeando forças incontroláveis!Xangô correu para sua aldeia, assustado com a destruição que provocara.Quando chegou perto do palácio, viu o erro que cometera. A destruição era total e, para piorar a situação, todos os seus descendentes haviam morrido. Ao ver que o rei estava muito perturbado, seu próprio povo tentou consolá-lo com a promessa de reconstruir a cidade, fazendo tudo voltar ao que era antes. Xangô, sem dar ouvidos a ninguém, foi embora da cidade.Ele não suportou tanta dor e injustiça, retirando-se para um lugar afastado, para acabar com sua vida. O rei enforcou-se em Pé de Obi.Oyá, quando soube da morte de seu marido, chorou copiosamente, formando o rio Niger. Ela, que tinha conhecimento do reino dos eguns, foi até lá para trazer seu companheiro da morte, que veio envolto em panos brancos e com o rosto coberto por uma máscara de madeira, pois não podia ser reconhecido por Ikú, o Senhor da Morte. Xangô ressurge dos mortos, tornando-se um ser encantado. E foi assim que surgiu uma nova forma, ou qualidade, desse orixá, a qual chamamos Airá. Essa variação da essência de Xangô adotou, além do vermelho, a cor branca.

Òsonyín Ewé ó ! Ewé àsà ! - Oh, minhas folhas ! A folha é a tradição !



É o orixá guardião de todos os segredos das folhas, raízes e cascas.Ossaniyn ou Ossain (como se escreve habitualmente) é o deus das ervas. Comanda as folhas, as medicinais, as litúrgicas, é o mestre do mato. Sem ele nenhuma cerimônia é possível. Usa pilão, veste verde, sua ferramenta tem sete pontas, uma das quais no centro com um pássaro no alto. Bode e galo são suas comidas prediletas; sua saudação: Ewê ô! muitas vêzes é representado com uma única perna. Trata-se de um dos Orixás mais importantes.Sua atuação é fundamental para a realização das cerimônias e rituais do Candomblé. Através das rezas apropriadas, esse orixá consegue despertar o poder das folhas, que são detentoras de um poderoso axé.Cada divindade tem as suas ervas e folhas particulares, mas só Òsányìn conhece profundamente o poder ou axé das folhas. O poder de Òsányìn está num pássaro que é o seu mensageiro. Este pássaro voa por toda parte do mundo e pousa em cima da cabeça de Òsányìn para lhe contar todos os acontecimentos. Este pássaro é um simbolismo bastante conhecido das feiticeiras freqüentemente chamadas de elewú-eiyé, ou seja, "proprietárias do pássaro-poder". Òsányìn vive na floresta em companhia de àroni, um anãozinho de uma perna só que fuma um cachimbo feito de casca de caracol enfiado num talo oco cheio de suas folhas favoritas.A sua importância é fundamental, pois nenhuma cerimônia pode ser feita sem a sua presença, sendo ele o detentor do axé - o poder - imprescindível até mesmo aos próprios deuses. As folhas nascidas das árvores e as plantas constituem uma emanação direta do poder sobrenatural da terra fertilizada pela chuva (água-sêmem) e, com esse poder, a ação das folhas podem ser múltiplos, para diversos fins.

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE OSSAIN

São pessoas de caráter equilibrado, capazes de controlar seus sentimentos e emoções. Daquelas que não deixam suas simpatias e antipatias intervirem nas suas decisões ou influenciarem as suas opiniões sobre pessoas e acontecimentos. É o arquétipo dos indivíduos cuja extraordinária reserva de energia criadora e resistência passiva ajuda-os a atingir os objetivos que fixaram. Daqueles que não têm uma concepção estrita e um sentido convencional de moral e da justiça. Enfim, daquelas pessoas cujos julgamentos sobre os homens e as coisas são menos fundados sobre as noções de bem e de mal do que sobre as de eficiência. São de natureza muito reservadas e tímidas, que não deixam transparecer suas emoções. Preferem ficar em casa, dentro de um mundo fechado que são capazes de criar, do que sair em badalações com amigos.Gostam do isolamento, por isso dificilmente conseguem ter bons relacionamentos amorosos. Além disso, são auto-suficientes e equilibrados.Os filhos de Ossain possuem uma grande inclinação para questões humanitárias, sensibilizando-se muito com o sofrimento das pessoas. Procuram ajudar a quem precisa, sendo despojados de vaidade e ambições.Preocupam-se com o seu bem estar e o de sua família, que protegem contra tudo e contra todos.Geralmente, gostam de estudar botânica, ou, simplesmente, mexem com as plantas com muita habilidade. Adoram preparar chás e utilizar remédios naturais.

LENDAS DE OSSAIN

Ossain recebera de Olodumaré o segredo das folhas. Ele sabia que algumas delas traziam a calma ou o vigor. Outras, a sorte, a glória, as honras ou ainda, a miséria, as doenças e os acidente. Os outros orixás não tinham poder sobre nenhuma planta. Eles dependiam de Ossain para manter sua saúde ou para o sucesso de suas iniciativas. Xangô, cujo temperamento é impaciente, guerreiro e impetuoso, irritado por esta desvantagem, usou de um ardil para tentar usurpar a Ossain a propriedade das folhas. Falou dos planos à sua esposa Iansã, a senhora dos ventos. Explicou-lhe que, em certos dias, Ossain pendurava, num galho de Iroko, uma cabaça contendo suas folhas mais poderosas. "Desencadeie uma tempestade bem forte num desses dias", disse-lhe Xangô. Iansã aceitou a missão com muito gosto. O vento soprou a grandes rajadas, levando o telhado das casas, arrancando árvores, quebrando tudo por onde passava e, o fim desejado, soltando a cabaça do galho onde estava pendurada. A cabaça rolou para longe e todas as folhas voaram. Os orixás se apoderaram de todas. Cada um tornou-se dono de algumas delas, mas Ossain permaneceu senhor do segredo de suas virtudes e das palavras que devem ser pronunciadas para provocar sua ação. E, assim, continuou a reinar sobre as plantas como senhor absoluto. Graças ao poder (axé) que possui sobre elas. Ossain era o único orixá que sabia reconhecer e despertar os poderes mágicos das plantas e usá-los para curar as enfermidades, ou nos rituais litúrgicos. Ele sabia, como ninguém, fazer misturas mágicas com os vegetais, raízes e folhas.Os outros orixás também tinham o desejo de possuir suas próprias folhas, bem como o conhecimento necessário para receber o axé proveniente delas, mas Ossain não revelava seus segredos e não deixava ninguém apanhar folhas em suas florestas.Oyá (Yassan) não aceitava essa situação, pois sua aldeia estava sendo assolada por doenças, e nada podia ser feito. Foi, então, que ela pediu a Ossain que lhe desse algumas folhas e seus respectivos encantamentos, mas este negou-se a fazê-lo. Oyá ficou muito contrariada, não se conformando com uma atitude tão insensível. Sua fúria incontrolável fez levantar o vento. E o vento foi tão forte, que as folhas se desprenderam das árvores, voando para todos os cantos da floresta. Ossain gritava: "Minhas folhas, minhas folhas". A cabaça com os segredos ficou exposta por algum tempo, possibilitando aos orixás a oportunidade de absorver uma pequena parte desse conhecimento. Assim, os orixás cataram suas folhas, que seriam utilizadas em seus rituais sagrados; porém, não podiam dispensar a ajuda de Ossain, pois ele sempre será o grande sábio da floresta.Outra lenda nos conta que Ossain trabalhava na roça de Orunmilá, que é um orixá fun-fun (da cor branca) e detentor do conhecimento do oráculo divinatório. Ossain tinha a tarefa de cultivar os campos, mas recusava-se a limpar o terreno para fazer a semeadura. Ele não conseguia podar as plantas, pois achava utilidade em todas elas. Essas folhas podiam curar todo tipo de doença existente.Orunmilá, vendo que o serviço não saía, foi ver o que estava acontecendo.Ossain explicou seus motivos, fazendo com que o grande orixá fun-fun percebesse estar diante de um ser encantado e de grande conhecimento. Ao invés de castigá-lo, deu-lhe uma posição de destaque dentro do oráculo de Ifá. Dessa forma, Orunmilá teria, perto de si, alguém para lhe revelar os segredos das folhas.Uma lenda explica a divisão das suas folhas com os outros orixás: "Ossain havia recebido de Olodumaré o segredo das ervas. Estas eram de sua propriedade e ele não as dava a ninguém, até o dia em que Xangô se queixou à sua mulher, Oyá , senhora dos ventos, de que somente Ossain conhecia o segredo de cada uma dessas folhas e que os outros orixás estavam no mundo sem possuir nenhuma planta. Oyá levantou as saias e agitou-as impetuosamente. Um vento violento começou a soprar. Ossain guardava o segredo das ervas numa cabaça pendurada num galho de árvore. Quando viu o que vento havia soltado a cabaça, e , que esta tinha se quebrado ao bater no chão, ele gritou 'Ewé O! Ewé O!' - 'Oh! As folhas! Oh! As folhas! -, mas não pode impedir que os orixás as pegassem e as repartissem entre si.

Eparrei Oyá - Dona dos Ventos e Tempestades


Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Niger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira esposa de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso. Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Oiá desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder. Oiá foi, no entanto, a única das mulheres de Xangô que, ao final do seu reinado, seguiu-o na fuga para Tapá. E, quando Xangô recolheu-se para baixo da terra, em Kossô, ela fez o mesmo em Irá. Oyá recebeu, de Olorun, a missão de transformar e renovar a natureza através do vento, que ela sabe manipular. O vento nem sempre é tão forte, mas, algumas vezes, forma-se uma tormenta, que provoca muita destruição e mudanças por onde passa, havendo uma reciclagem natural. Normalmente, Oyá sopra a brisa, que, com sua doçura, espalha a criação, fazendo voar as sementes, que irão germinar na terra e fazer brotar uma nova vida. Além disso, esse vento manso também é responsável pelo processo de evaporação de todas as águas da terra, atuando junto aos rios e mares. Esse fenômeno é vital para a renovação dos recursos naturais, que, ao provocar as chuvas, estarão fertilizando a terra.Oyá possui um grande conhecimento, adquirido através da convivência com muitos orixás, como Ogun, com quem aprendeu os caminhos; Iroko, que a ensinou a evocar o vento; Odé, com quem aprendeu a caçar; Xangô, seu eterno companheiro; Obaluaiê, com quem compartilha o reino dos Eguns; Orunmilá e Oxalá, entre outros. Vivia com eles o tempo necessário para aprender o que precisava, deixando-os em seguida, para continuar com suas andanças pelo mundo. Alguns tentaram, em vão, prendê-la, mas é impossível segurar o vento. A liberdade é muito importante para ela.Foi com Xangô, seu marido, que passou mais tempo, pois os dois se completavam. Mas, apesar disto, ergueu-se contra ele em defesa de seu povo, fazendo com que recuasse. Nem mesmo Xangô conseguiu dobrá-la.Guerreira poderosa, é também detentora de poderes de feitiçaria, não temendo nada nem ninguém. Nunca fugiu das batalhas, agindo sempre com uma força devastadora. Ela se transforma com muita rapidez para destruir o inimigo, voltando ao normal logo em seguida, como se nada tivesse acontecido.Ela tem o domínio e o conhecimento sobre os eguns (espíritos desencarnados). Após a morte e a limpeza do corpo, que é realizada por Omolu, Oyá encarrega-se de levá-los até os portais do orun (mundo paralelo). É Oyá, também, quem se encarrega de apagar as memórias das pessoas que irão renascer no aiye (Terra). Quando nós renascemos na Terra ainda conseguimos lembrar de algums fatos de nossa existência passada. Aos poucos, ainda na infância, nossa memória vai se apagando, até que todas as imagens desapareçam.

LENDAS DE OYÁ
Segundo a lenda, Oyá vivia feliz com Ogun, pois os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares. Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Com ele, que é conhecedor de todos os caminhos, Oyá aprendeu a andar pela Terra.Gostava muito de vê-lo trabalhar, em seu oficio de ferreiro, tentando aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Oyá pedia insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.Um dia, Ogun a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu exército estava usando esse mesmo tipo de arma.Mas Ogun não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada. Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Oyá adorava a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia. Começou a sentir-se rejeitada por ele.Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogun, pois precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso com sua aparência. Era impossível não notar sua presença.Ogun, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do serviço.Xangô também notou a presença de Oyá, sentindo uma grande atração por ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como Ogun.Oyá estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo com ele, mas não queria magoar Ogun, a quem respeitava muito.Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando sempre juntos por toda a Terra. Seria uma união perfeita.Quando Ogun terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira não podia ficar cativa para sempre.Partiu atrás deles para vingar sua desonra!Oyá estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre como grande orixá da guerra.Ogun estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Oyá, em defesa própria, também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo, e Ogun em sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses orixás, assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos.O arquétipo de Oyá-iansã é o das mulheres audaciosas, poderosas e autoritárias. Mulheres que podem ser fiéis e de lealdade absoluta em certas circunstâncias, mas que, em outros momentos, quando contrariadas em seus projetos e empreendimentos, deixam-se levar a manifestações da mais extrema cólera. Mulheres, enfim, cujo temperamento sensual e voluptuoso pode levá-las a aventuras amorosas extraconjugais múltiplas e frequentes, sem reserva nem decência, o que não as impede de continuarem muito ciumentas dos seus maridos, por elas mesmas enganados. Não suportam trabalhar em lugares fechados e, principalmente, obedecer ordens, pois não gostam de se sentir inferiorizados. Por isso, são instáveis em sua vida profissional. Não aceitam que pessoas de fora se intrometam na rotina de sua casa ou dêem palpites em sua vida familiar. Não gostam que lhe digam o que fazer, ou que lhe façam críticas.nbsp; Sempre tentarão justificar suas atitudes, mesmo que sejam injustificáveis. Dão muito valor à segurança de um lar e de uma família bem constituída e feliz. Adoram sua casa, embora não agüentem ficar presas a ela. São muito sensuais e apaixonam-se com freqüência, só aceitando viver com alguém se existir amor. Quando amam de verdade, fazem de tudo para manter essa relação. São ciumentos, possessivos e incapazes de perdoar ou esquecer uma traição.

Rora Yeyé ó fí dé rí omon Òsun - Mãe cuidadosa, aquela que usa coroa e protege os seus filhos.

Orixá cultuado na região de Ijexá, Nigéria, onde existe um rio com seu nome.Oxun domina as águas doces dos rios, lagos, córregos e cachoeiras, tendo algumas qualidades que também habitam a água salgada. É considerada a mãe dos peixes. É responsável pela irrigação e fecundação da terra, possibilitando o surgimento de uma nova vida. Ela é freqüentemente evocada para propiciar uma boa colheita. Olorun deu a ela o poder sobre a gestação e a fertilidade dos seres humanos, sendo muito ligada ao instinto maternal. Oxun protege o ser criado no momento da concepção e período intra-uterino. Olorun deu a ela o poder sobre a gestação e a fertilidade dos seres humanos, sendo muito ligada ao instinto maternal. Oxun protege o ser criado no momento da concepção e período intra-uterino. Está presente na hora do nascimento e pós-parto, tornando-se responsável pela criança o tempo necessário para que esta possa caminhar sozinha. Esse orixá também cuida de todo o órgão reprodutor feminino, bem como do ejé (sangue) que as mulheres liberam no período menstrual. Muitas oferendas são realizadas em sua homenagem, com o intuito de possuir o sagrado dom da maternidade, ou para pedir a cura de alguns dos males ginecológicos. O poder de gestação, que só as mulheres têm, é muito valorizado na mitologia africana e, por esse motivo, elas são consideradas seres mais completos. Oxalá reconhece e saúda essa dádiva feminina. Esse poder gerador permite que as mulheres sejam muito melhor feiticeiras do que os homens. Além disso, elas possuem um sexto sentido muito desenvolvido, que é a intuição.O principal emblema de Oxun é o abebe, no qual está representada a cabaça ventre. Nessa cabaça estão guardados todos os mistérios da procriação.A fertilidade, não diz respeito somente à reprodução das espécies. Num sentido mais amplo, a fertilidade irá atuar no campo das idéias, despertando a criatividade do ser humano, que possibilitará o seu desenvolvimento.Oxun está ligada à riqueza, tendo no ouro seu principal metal, que é, também, sua cor predominante. Além disso, a beleza e a graciosidade são seus predicados mais apreciados.É considerada a maior feiticeira do panteão dos orixás, sendo, muitas vezes, confundida com a própria Iya-mi Oxorongá. Tudo que sai da boca dos filhos da Oxun deve ser levado em conta, pois eles têm o poder da palavra, ensinando feitiços ou revelando presságios. Oxun esteve ligada a vários orixás, como Ogun, Xangô, Odé, Orunmilá e Exú, com quem tem uma grande afinidade.Oxum é doçura sedutora. Todos querem obter seus favores, provar do seu mel, seu encanto e para tanto lhe agradam oferecendo perfumes e belos artefatos, tudo para satisfazer sua vaidade. Na mitologia dos orixás ela se apresenta com características específicas, que a tornam bastante popular nos cultos de origem negra e também nas manifestações artísticas sobre essa religiosidade. O orixá da beleza usa toda sua astúcia e charme extraordinário para conquistar os prazeres da vida e realizar proezas diversas. Amante da fortuna, do esplendor e do poder, Oxum não mede esforços para alcançar seus objetivos, ainda que através de atos extremos contra quem está em seu caminho. Ela lança mão de seu dom sedutor para satisfazer a ambição de ser a mais rica e a mais reverenciada. Seu maior desejo, no entanto é ser amada o que a faz correr grandes riscos, assumindo tarefas difíceis pelo bem da coletividade. Em suas aventuras, este orixá é tanto a brava guerreira, pronta para qualquer confronto, como a frágil e sensual ninfa amorosa. Determinação, malícia para ludibriar os inimigos, ternura para com seus queridos, Oxum é, sobretudo a deusa do amor. Também deusa da fertilidade, na Nigéria é dela o rio que leva o seu nome e no Brasil dela são as águas doces dos lagos fontes e rios. Água que mata a sede dos humanos e da terra, que assim se torna fecunda e fornece os alimentos essenciais à vida dos homens e mulheres tão amados pela mamãe Oxum.

Este orixá encarna a identidade feminina, vivendo intensamente os papéis de filha, amante e mãe. De menina dengosa, passando pela mulher irresistível até a senhora protetora, Oxum é sempre dona de uma personalidade forte, que não aceita ser relegada a segundo plano, afirmando-se em todas circunstâncias da vida. Com seus atributos, ela dribla os obstáculos para satisfazer seus desejos. O orixá amante ataca as concorrentes, para que não roubem sua cena, pois ela deve ser a única capaz de centralizar as atenções. Na arte da sedução não pode haver ninguém superior a Oxum. No entanto ela se entrega por completo quando perdidamente apaixonada, afinal, o romantismo é outra marca sua. Da África tribal à sociedade urbana brasileira, a musa que dança nos terreiros de espelho em punho para refletir sua beleza estonteante é tão amada quanto a divina mãe que concede a valiosa fertilidade e se doa por seus filhos. Por todos seus atributos a belíssima Oxum não poderia ser menos admirada e amada, não por acaso a cor dela é o reluzente amarelo ouro, pois como cantou Caetano Veloso, “gente é pra brilhar”, mas Oxum é o próprio brilho em orixá. Ori Ieiê Ô! O arquétipo de Oxum é o das mulheres graciosas e elegantes, com paixão pelas jóias, perfumes e vestimentas caras. Das mulheres que são símbolos do charme e da beleza. Voluptuosas e sensuais, porém mais reservadas que Oiá. Elas evitam chocar a opinião pública, à qual dão grande importância. Sob sua aparência graciosa e sedutora escondem uma vontade muito forte e um grande desejo de ascensão social. Possuem poderes de feitiçaria e muita força em suas palavras, sendo portadores de alguns presságios.O sexo é muito importante para eles, valorizando seus relacionamentos e o ser amado, desde que sejam gentis e suaves. Gostam do prazer e da inconseqüência, mas devem tomar muito cuidado com doenças sexualmente transmissíveis.

Yemonja Odò ìyá - Saudação a Mãe dos Oceanos


Yemonjá filha de Olokun ( Deus do mar ), cujo o nome deriva de Yeye oman ejá, "Mãe cujos filhos são peixes", é o Orixá dos Egbás, uma nação yorubá estabelecida outrora na região de Ibadan, onde existe ainda o rio Yemanjá. As guerras entre nações yorubás levaram os Egbás a emigrar, em direção oeste, para Abeokutá, no inicio do século XIX. Evidentemente, não lhes foi possível carregar o rio, mas, em contrapartida, transportaram consigo objetos os sagrados, suportes do Axé da divindade, e o rio Ogun, que atravessa a região, tornou-se a partir de então, a nova morada de Yemanjá.O templo principal de Yemanjá fica em Ibará, bairro da cidade de Abeokutá. Os fiéis desta divindade vão procurar, todos os anos, as águas sagradas para levar os Axés, suportes de seu poder, não no rio Ogun, mas na fonte de um de seus afluentes, chamado Lakaxá. Esta água, recolhida em jarras, é trazida em procissão para seu templo.No Brasil, Olokun é praticamente desconhecido, ao passo que Yemonjá é a grande senhora dos mares. Os pescadores brasileiros têm por ela verdadeira adoração, sendo uma poderosa protetora nos momentos de perigo, e companheira, quando a solidão do mar os invade. Eles acreditam que, se morrerem no mar, Yemonjá, em pessoa, irá conduzi-los para sua derradeira morada, e, nessa hora, poderão apreciar a deslumbrante beleza dessa mãe das águas.Orixá responsável pela concepção da vida, pela fertilidade, é totalmente ligada às águas, sendo denominada a mãe dos filhos peixes. Como sabemos, tanto pelas descobertas científicas como pelas antigas lendas africanas, a vida desenvolveu-se primeiro na água. Por isso, Yemonjá é detentora do poder da criação, ou concepção dos seres vivos.Na mitologia, ela foi mãe de Ogun e Odé, além de adotar como filhos outros orixás, como Obaluaiê e Omolu, que foram rejeitados por sua verdadeira mãe. Yemonjá possui um grande instinto maternal, sabendo cuidar com muito zelo de seus protegidos.É, muitas vezes, associada às sereias, mas, na verdade, é um orixá, e, como tal, não tem forma humana nem animal. Em todo mundo, diversos povos cultuam essas divindades que habitam as águas do mar, assumindo as mais diversas formas.Nós, seres humanos, também somos formados por água, possuindo uma pequena parte desse elemento de Yemonjá em nosso corpo. Por causa disto, é que no obori (dar comida à cabeça), ritual realizado tanto para fortalecimento do corpo da pessoa (que irá receber a energia do orixá) como para compensar o adiamento de uma obrigação do Candomblé, serão feitas oferendas também para Yemonjá, além do próprio orixá da pessoa. Todos os seres têm uma grande ligação com esse orixá, inclusive os filhos de orixás pertencentes ao elemento fogo, como Xangô.Os iawôs têm sua cabeça e os pés pintados de azul em homenagem à Yemonjá, porque ela, segundo algumas lendas, queria que todo ser humano fosse azul, como a cor de suas águas, ao invés dessa cor que se assemelha à terra.Yemonjá tem dias especiais de culto no calendário brasileiro, onde são realizadas muitas festas religiosas, com oferendas de barcos enfeitados, flores, espelhos, pentes, etc.O domínio de Yemonjá compreende a zona de arrebentação das ondas ou quebra-mar, e não a praia. O mar despeja todo o seu lixo na areia da praia, que é um lugar onde não devem ser feitas oferendas.Yemonjá é o orixá da paz, da ausência de conflitos e da fartura.
CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE YEMONJÁ
As mulheres desse orixá assumem a condição de dona do lar, mãe e mulher. Como mães, sabem cuidar muito bem de sua prole, em todos os sentidos, preocupando-se com a saúde, higiene, aprendizado, educação e alimentação. Geralmente, são muito severas e, às vezes, cometem alguns exageros nesses cuidados. Elas não descansam enquanto tudo não estiver dentro dos padrões estabelecidos por elas próprias.São perfeccionistas em tudo que fazem, e não gostam das coisas malfeitas. Adoram limpeza e organização, sempre conferindo se o serviço foi bem feito, caso elas mesmas não possam assumir as tarefas do lar. Mesmo trabalhando fora, não descuidam de sua casa e do bem estar de sua família, que geralmente é numerosa.Não gostam da solidão, por isso dão muito valor à sua vida familiar, sendo muito carinhosas com seus entes queridos. Mesmo que, às vezes, ajam com austeridade, elas estão única e exclusivamente pensando no bem-estar de todos. Freqüentemente, esquecem de si próprias, de seus anseios e necessidades, para trabalhar em prol da felicidade dos que ama. Tendem a ser a mãe de todos que as cercam.Os filhos de Yemonjá assumem muitas responsabilidades, encarando os problemas com inteligência e sempre encontrando a melhor solução. Adoram mandar, por isso têm a fama de autoritários.Não gostam de empregos competitivos, preferindo os mais calmos, que possibilitem um bom desenvolvimento de seu trabalho. São pessoas muito confiáveis e competentes no que fazem. Sem muitas ambições, preferem viver bem e com segurança o seu dia a dia, do que sonhar acordado.A força e a determinação são traços marcantes de sua personalidade, assim como a amizade e o companheirismo.São discretos e capazes de fazer chantagens emocionais, mas nunca diabólicas.Demoram muito para confiar em alguém, pois não gostam de ser apunhalados pelas costas. Embora possuam grande capacidade de perdoar, nunca esquecem o que lhe fazem, tanto de bom, quanto de ruim.Têm muito jeito para ensinar, principalmente as crianças, sendo ótimas professoras.Os filhos de Yemonjá gostam de luxo, jóias, bons tecidos e conforto. Não apreciam as viagens e detestam hotéis, pois nada se compara à sua casa.Fisicamente, são pessoas que possuem tendência a engordar, sendo, na sua maioria, pessoas cheinhas. São bons garfos e bons cozinheiros, não dispensando os doces e as guloseimas.Podem apresentar problemas nos rins e tendência a reter líquidos no organismo.A sexualidade é um pouco reprimida, sendo pudicas e tímidas nessa área.Encaram a vida como uma grande jornada de travessia longa e difícil, mas encaram isso com muito paz.
LENDAS DE YEMONJÁ
Yemonjá, grande orixá das águas, era filha de Olokun, o senhor dos oceanos. Era possuidora de um grande instinto maternal, que fez dela mãe de dez filhos. Embora casada, não tinha grande apego por seu marido. Às vezes, pensava em deixá-lo, mas ele era um homem muito importante e poderoso, e não permitiria tal desonra. Yemonjá também pensava no bem-estar de seus filhos, não podendo deixá-los desamparados.Seu marido usava o poder com tirania, inclusive com sua família, tornando a vida dela insuportável. Ela não agüentava mais se submeter aos caprichos de um homem que ela desprezava.Ela procurou seu pai para aconselhar-se sobre a atitude que deveria tomar. No fundo, ela já estava decidida a fugir, mas precisava de seu apoio. Olokun não a recriminou, pois ela era uma soberana e, como tal, não poderia aceitar o jugo de ninguém. Ele, então, deu à sua filha uma cabaça com encantamentos, para que ela usasse quando estivesse em perigo.Yemonjá colocou seu plano em prática, fugindo com todos os seus filhos.Quando ela já estava bem longe de sua aldeia, viu que estava sendo perseguida pelo exército de seu marido. Pensou em enfrentá-los, mas eles eram muitos e seria uma luta desleal. Yemonjá odeia os confrontos, pela destruição que causam, já que é um orixá propagador de vida.Quando se sentiu acuada, resolveu abrir a cabaça e pedir socorro ao seu pai. Do seu interior escoou um líquido escuro, que, ao tocar o chão, imediatamente formou um rio, que corria em direção ao oceano.Foi nessas águas que Yemonjá e seu povo encontraram um caminho para a liberdade.

Sálù bá Nàná Burúkú - Nós refugiaremos com Nàná da morte ruím


Nàná é um vodun (orixá) da nação Gêge, de tempos imemoriais. Está associada aos mitos da criação da Terra, sendo a precursora de todas as divindades que têm o poder de gerar a vida. É o lado feminino dos criadores do mundo.Grande Senhora das terras molhadas e fecundas, com a qual foram criados todos os seres, reina na lama, que formou a Terra, nas águas paradas e pântanos.Ao mesmo tempo em que dá vida às criaturas, faz com que retornem ao seu elemento de origem para, mais tarde, renascerem na Terra, formando o ciclo da vida e da morte. Por isso, nós acreditamos que o corpo, após a morte, deve ser devolvido à terra, de onde ele saiu um dia.Nanan, pelo fato de ser um dos primeiros orixás criados por Olorun, é caracterizada como uma anciã, ou uma avó. Novamente, caímos no erro de comparar uma energia sobrenatural, que é o orixá, com simples mortais, atribuindo-lhes uma idade cronológica humana. É guardiã do reinado dos eguns e ancestrais, assim como seu filho Obaluayê, usando o ibirin (espécie de bastão ritual com a ponta curva, confeccionado com palha da costa e búzios) como elemento controlador e genitor.Sua existência vem de tempos remotos, anteriores à descoberta do ferro, por isso, em seus rituais, não devem ser utilizados objetos cortantes de metal.Nunca devemos evocá-la sem um motivo muito forte. Mesmo seus próprios filhos. É um orixá muito poderoso e de tendência devastadora, quando provocado. Seus preceitos são extremamente complexos e ricos em detalhes. Se o babalorixá não tiver perícia e conhecimento, poderá cometer erros que serão fatais, tanto para ele como para o iniciado. Raramente um filho de Nanan é incorporado por sua energia, sendo que suas aparições nos terreiros têm um intervalo mínimo de três anos. Quando alguém a incorpora, deve-se interromper o xirê para saudá-la em especial. Coloca-se, em suas mãos, um cajado de ponta curva, recoberto de búzios, e uma base de palha desfiada, com o qual ela insinua uma varredura do ambiente, limpando-o de todas as más influências. Se a noviça não estiver paramentada com as roupas rituais, amarra-se um torço na cabeça, juntamente com algumas folhas especiais de Nanan (mamona, flor da noite, etc.), recobrindo os olhos. Os voduns Gêges não costumam revelar seu rosto.Os fundamentos necessários para louvar esse orixá pertencem à cultura Gêge. Mesmo que existam filhos de Nanan em outras nações, todos os preceitos devem ser feitos dentro dos rituais desta nação.Nanan vive nas madrugadas, quando o orvalho umedece a terra. Por isso, só aceita oferendas em sua homenagem após as três horas da manhã, quando o sol ainda não se levantou. O babalorixá não deve deixar esses ebós à mostra, e deverá abandonar o local dos rituais rapidamente, pois existe o risco de aparecerem cobras perto da comida.Os búzios também fazem parte de seus paramentos, ornando seu cajado, o ibiri e o brajá.
CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE NANÃ
Nanã Buruku é o arquétipo das pessoas que agem com calma, benevolência, dignidade e gentileza. Das pessoas lentas no cumprimento de seus trabalhos e que julgam ter a eternidade à sua frente para acabar seus afazeres. Elas gostam das crianças e educam-nas, talvez, com excesso de doçura e mansidão, pois têm tendência a se comportarem com a indulgência dos avós. Agem com segurança e majestade. Suas reações bem equilibradas e a pertinência de suas decisões mantêm-nas sempre no caminho da sabedoria e da justiça.
LENDAS DE NANÃ
Disputa entre NANÃ BURUKU e OGUM
Nanã Buruku é uma velhíssima divindade das águas, vinda de muito longe e há muito tempo. Ogum é um poderoso chefe guerreiro que anda, sempre, à frente dos outros Imalés. Eles vão, um dia, a uma reunião. É a reunião dos duzentos Imalés da direita e dos quatrocentos Imalés da esquerda. Eles discutem sobre seus poderes. Eles falam muito sobre obatalá, aquele que criou os seres humanos. Eles falam sobre Orunmilá, o senhor do destino dos homens. Eles falam sobre Exú: "Ah! É um importante mensageiro!" Eles falam muita coisa a respeito de Ogum. Eles dizem: "É graças a seus instrumentos que nós podemos viver. Declaramos que é o mais importante entre nós!" Nanã Buruku contesta então: "Não digam isto. Que importância tem, então, os trabalhos que ele realiza?" Os demais orixás respondem: "É graças a seus instrumentos que trabalhamos pelo nosso alimento. É graças a seus instrumentos que cultivamos os campos. São eles que utilizamos para esquartejar." Nanã conclui que não renderá homenagem a Ogum. "Por que não haverá um outro Imalé mais importante?" Ogum diz: "Ah! Ah! Considerando que todos os outros Imalés me rendem homenagem, me parece justo, Nanã, que você também o faça." Nanã responde que não reconhece sua superioridade. Ambos discutem assim por muito tempo. Ogum perguntando: "Voce pretende que eu não seja indispensável?" Nanã garatindo que isto ela podia afirmar dez vezes. Ogum diz então: "Muito bem! Voce vai saber que eu sou indispensável para todas as coisas." Nanã, por sua vez, declara que, a partir daquele dia, ela não utilizará absolutamente nada fabricado por Ogum e poderá, ainda assim, tudo realizar. Ogum questiona: "Como voce fará? Voce não sabe que sou o proprietário de todos os metais? Estanho, chumbo, ferro, cobre. Eu os possuo todos." Os filhos de Nanã eram caçadores. Para matar um animal, eles passaram a se servir de um pedaço de pau, afiado em forma de faca, para o esquartejar. Os animais oferecidos a Nanã são mortos e decepados com instrumentos de madeira. Não pode ser utilizada a faca de metal para cortar sua carne, por causa da disputa que, desde aquele dia, opôs Ogum a Nanã.

Òsùmàrè Arô Boboi ! - Saúdo o Intermediário ! Os olhos de Deus

OSUMARE ou ESUMARE é a única divindade que traz em seu nome a raiz do nome de OLODUNMARE, o Criador - o sufixo MARE. MARE significa "Aquele que sempre é", "Aquele que tem autoridade sobre tudo o que há no céu e na terra e é incomparável", "Aquele que é absolutamente perfeito", "Supremo em qualidades". O significado do nome ESUMARE referencia diretamente o próprio papel desse EBORA, na manifestação e execução do projeto de OLODUNMARE, através do qual o ase se esparrama pela terra, enquanto poder de realização, garantindo através de ESUMARE os ciclos em que se operam cada etapa de transformações inerentes ao ritmo da vida, em seu movimento bipolar de fluxo e refluxo, a garantir a continuidade da existência. Grande Obá (rei) da nação Gêge, filho de Orixalá (Oulissassa) e Nanan (Anabioko), irmão de Obaluayê e Iroko. Olorun atribuiu-lhe a função de dar mobilidade a todos os seres da Terra, representando a coluna vertebral, nos seres mais desenvolvidos. É o orixá da transformação, do movimento constante e da harmonia do universo. Poderoso vodun, é responsável pela evolução, em todos os sentidos. Obessem (Dan), como é chamado na nação Gêge, é representado pela cobra não venenosa, que morde a própria cauda. Veio, dessa forma, para a Terra, para selar a união das duas metades do planeta, ou hemisférios. Também uniu as duas metades da maioria dos seres vivos, ou seja, o lado direito e o esquerdo. O grande Deus, Olorun, esticou Obessen, para que percorresse e abraçasse todo planeta. Nessas andanças, a serpente traçou sulcos na terra, formando o leito de rios e lagos, que mais tarde foram preenchidos com água. Graças a esse fenômeno, grandes extensões de terra foram irrigadas e fertilizadas. A terra molhada é muito importante na concepção religiosa africana, pois representa a fecundação. Sem isso, não poderia haver evolução e renovação da natureza. Isso também pode ser notado no processo de reprodução dos seres humanos, onde o óvulo feminino simboliza a terra, e o sêmen a água. Contam as lendas que Oxunmare foi incumbido de fazer retornar para o orun (céu) todas as águas do planeta (juntamente com uma qualidade do orixá Oyá, é responsável pelo fenômeno de evaporação). Esse ciclo interminável, simbolizado pelo arco-íris, que surge quando a água, que foi devolvida para o céu, caia novamente na terra em forma de chuva, faz com que esse orixá reinicie seu trabalho, que nunca tem fim. Esse processo é muito importante, pois a água limpa, que cai na terra, purifica a natureza e os seres, preservando a vidaA aliança entre o céu e a Terra foi estabelecida através do arco-íris, onde Oxunmare revela para o mundo todas as suas cores. Esse orixá transporta as riquezas de um plano a outro da existência.Foi com as sete cores do arco-íris, e as diversas combinações entre elas, que Oxunmare tornou toda a Terra multicolorida, diferenciando todas as espécies. Se fosse pela vontade de Yemonjá, tudo seria azul, como as águas; Nanan preferia as diferente nuanças da cor terra; e Oxalá deixaria todo planeta incolor.Além do arco-íris do sol, Oxunmare também mostra suas cores ao redor da lua, em alguns dias do ano. Nessa noite, em que a lua exibe sua aureola colorida, pode-se fazer um ebó muito poderoso, para retirar todas as nossas mazelas. Obessem, como rei da nação Gêge, é detentor de grande poder, fortuna e conhecimento profundo do universo. A cobra vem do céu para a Terra perfurando-a e saindo pelo outro lado. Por isso, os assentamentos desse orixá são simbolizados por dois poços abertos na terra, sem comunicação entre eles, para representar o movimento que a cobra faz ao atravessar todo o planeta, por suas entranhas. Em sua indumentária, que são representadas por várias cores, aparecem o braja (colar de búzios) trançado e finalizado por três cabaças (onde estão guardados seus segredos), uma pequena lança e duas cobras escuras de ferro. Sua coroa (ade) pode ter formato de serpente. Nas festas públicas, quando se evoca esse orixá, através das cantigas que se entoam ao som dos atabaques, coloca-se uma cuia de água no centro do barracão, onde todos os iniciados irão reverenciar esse orixá, tocando as mãos na água e levando-a à cabeça, em sinal de respeito ao grande Obá, que transporta as águas para o céu. Òsùmàrè é, ao mesmo tempo, macho e fêmea. Essa dupla natureza parece nas cores vermelha e azul que cercam o arco-iris. Representa tambem a riqueza, um dos benefícios mais apreciados no mundo dos Yorubá. O lugar de origem desse Òrìsà, como Obalúayé e Nàná, seria em Mahi, no ex-Dahomé, onde é chamado Dan. As contas azuis, segui para os Yorubá, são aí chamadas Danmi (excremento de serpente) na língua fon. Segund a tradição, essas contas são encontradas sob a terra, onde elas teriam sido evacuadas pelas serpentes, diz-se que elas tem um valor igual ao próprio peso em ouro.




CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE OXUNMARE



Oxumare é o arquétipo das pessoas que desejam ser ricas; das pessoas pacientes e perseverantes nos seus empreendimentos e que não medem sacríficios para atingir seus objetivos. Suas tendências à duplicidade podem ser atribuídas à natureza andrógina de seu deus. Com o sucesso tornam-se facilmente orgulhosas e pomposas e gostam de demonstrar sua grandeza recente. Não deixam de possuir certa generosidade e nçao se negam a estender a mão em socorro. São pessoas ambiciosas, que fazem o possível para vencerem na vida. Possuem o dom da paciência e da perseverança. Não se deixam abater pelas contrariedades que a vida lhes traz, revertendo sempre a situação a seu favor. Quando conseguem uma certa projeção social, tornam-se orgulhosos e, às vezes, arrogantes, ao tentarem diminuir as pessoas que o cercam. Eles sempre se destacam em qualquer ambiente, exibindo toda a sua soberania.Os filhos de Oxunmare são muito bons de coração, apiedando-se do sofrimento alheio e não se negando a ajudá-los. Não suportam ser colocados de lado ou serem traídos de alguma forma. Nessas situações, reagem usando alguns subterfúgios, para que esses inimigos sintam sua presença forte e ameaçadora, o que geralmente conseguem. Num confronto pessoal, agem com muita calma e coragem, falando tudo o que têm vontade, deixando a outra pessoa sem reação. São ótimos mantenedores de uma casa e sabem fazer de tudo, sempre da melhor maneira possível, com muito gosto e jeito. Na cozinha, são rápidos, eficientes e sabem cozinhar iguarias que poucas pessoas se dão ao trabalho de fazer. As pessoas desse orixá são muito comunicativas e extrovertidas, fazendo seu próprio ambiente onde quer que estejam. São altivos e orgulhos de suas habilidades, provocando inveja em muitas pessoas.Mesmo que estejam passando por momentos difíceis, estão sempre dispostos a enfrentar os problemas, ao invés de fugir deles. São muito dinâmicos, indo atrás de novidades em todos os sentidos. Desempenham muito bem tudo o que se propõem a fazer, demonstrando extrema segurança em suas ações. Emocionalmente, são instáveis e com tendência à solidão, mesmo que acompanhados, provocando nas pessoas todo tipo de sentimento, como amor, ódio, alegria, compaixão, admiração, etc. Um aspecto negativo dessas pessoas é o fato de quererem impor suas idéias e personalidade, o que acaba provocando muitos atritos em família.Apreciam e conhecem jóias, bons tecidos, automóveis, bebidas caras, bons restaurantes, etc.Podem ser ótimos sacerdotes de qualquer religião, pois conseguem captar facilmente os sentimentos das pessoas.

LENDAS DE OSUMARE

Oxumaré era, antigamente, um adivinho (babalaô). O adivinho do rei Oni. Sua única ocupação era ir ao palácio real no dia do segredo; dia que dá início à semana, de quatro dias, dos iorubás. O rei Oni não era um rei generoso. Ele dava apenas, a cada semana, uma quantia irrisória a Oxumaré que, por essa razão vivia na miséria com sua família. O pai de Oxumaré tinha um belo apelido. Chamavam-no "o proprietário do chale de cores brilhantes". Mas tal como seu filho, ele não tinha poder. As pessoas da cidade não o respeitavam. Oxumaré, magoado por esta triste situação, consultou Ifá. "como tornar-me rico, respeitado, conhecido e admiradopor todos?" Ifá o aconselhou a fazer oferendas. Ele disse-lhe que oferecesse uma faca de bronze, quatro pombos e quatro sacos de búzios da costa. No momento que Oxumaré fazia estas oferendas, o rei mandou chama-lo. Oxumaré respondeu: "Pois não, chegarei tão logo tenha terminado a cerimônia." O rei, irritado pela espera, humilhou Oxumaré, recriminou-o e negligenciou, até, a remessa de seus pagamentos habituais. Entretanto, voltando à sua casa, Oxumaré recebeu um recado: Olokum, a rainha de um país vizinho, desejava consultá-lo a respeito de seu filho que estava doente. Ele não podia manter-se de pé. Caía, rolava no chão e queimava-se nas cinzas do fogareiro.Oxumaré dirigiu-se à corte da rainha Olokum e consultou Ifá para ela. Todas as doenças da criança foram curadas. Olokum, encantada por este resultado, recompensou Oxumaré. Ela ofereceu-lhe uma roupa azul, feita de rico tecido. Ela deu-lhe muitas riquezas, servidores e um cavalo, sobre o qual Oxumaré retornou à sua casa em grande estilo. Um escravo fazia rodopiar um guarda sol sobre sua cabeça e músicoa cantavam seus louvores.Oxumaré foi, assim, saudar o rei. O rei Oni ficou surpreso e disse-lhe: "Oh! De onde vieste? De onde sairam todas estas riquezas?" Oxumaré respondeu-lhe que a rainha Olokum o havia consultado. "Ah! Foi então Olokum que fez tudo isto por voce!" Estimulado pela rivalidade, o rei Oni ofereceu a Oxumaré uma roupa do mais belo vermelho, acompanhada de muitos outros presentes. Oxumaré tornou-se, assim, rico e respeitado. Oxumaré, entretanto, não era amigo de Chuva. Quando Chuva reunia as nuvens, Oxumaré agitava sua faca de bronze e a apontava em direção ao céu, como se riscasse de um lado a outro. O arco-íris aparecia e Chuva fugia. Todos gritavam: "Oxumaré apareceu!" Oxumaré tornou-se, assim, muito célebre. Nesta época, Olodumaré, o deus supremo, aquele que estende a esteira real em casa e caminha na chuva, começou a sofrer da vista e nada mais enxergava. Ele mandou chamar Oxumaré e o mal dos seus olhos foram curados. Depois disso, Olodumaré não deixou mais que Oxumaré retornasse a Terra. Desde esse dia, é no céu que ele mora e só tem permissão para visitar a Terra a cada três anos. É durante estes anos que as pessoas tornam-se ricas e prósperas."

OUTRA LENDA

Oxunmare, filho de Nanan e Orixalá, recebeu de Olorun uma missão muito especial e importante para dar continuidade ao processo de criação e renovação da natureza. Sua tarefa consistia em carregar, dentro de suas cabaças, toda água da Terra de volta para o céu. Era uma tarefa árdua e interminável, pois, nem bem ele enchia as nuvens, a água já começava a escorrer, molhando tudo novamente. Ele não tinha tempo a perder, mas, numa dessas viagens, parou para olhar a Terra e viu um imenso lugar, onde tudo era extraído da lama. Estava faltando alguma coisa para dar mais alegria ao lugar. O próprio Oxunmare já tinha colocado em movimento todos os seres criados, como Olorun havia ordenado, mas ainda não bastava, tudo parecia muito igual e sem vibração. Ele resolveu, então, pedir a Deus que o ajudasse a encontrar uma maneira de trazer mais felicidade para a Terra, e Olorun concedeu a ele a realização desse desejo. Quando estava carregando água, sem querer, deixou cair algumas gotas pelo caminho. De repente, formou-se um arco colorido, de uma beleza incrível. Aquele arco mostrava as cores do universo, e, através dele e de suas infinitas combinações, Oxunmare poderia colorir toda a Terra com diversos matizes, tornando-a mais alegre e vibrante. A partir de então, formou-se uma aliança entre Deus (Olorun) e os seres criados, que sempre poderia ser vista quando as águas do céu encontrassem a luz do sol.O arco-íris tornou-se, também, símbolo desse Orixá, que gosta de movimento e harmonia em todas as coisas.

Atótó ! Omolú Olúké a jí béèrú sápadà ! - Salve o rei dos espiritos sobre a terra ! O Filho do senhor é quem grita e nós reverenciamos com temor


OBALUWAYE é um EBORA primordial e assim associado à criação e considerado como o grande regente do planeta. A terra, no sentido mais amplo da palavra, é sua matéria de origem, sobre a qual detém o poder e domínio absolutos.A terra é uma unidade cósmica, viva e ativa. Ela é o fundamento de todas as manifestações. Tudo o que compõe a terra, ou seja, sua extensão, a variedade de seu relevo e da vegetação que nela cresce, enfim, tudo o que está sobre a terra está em conjunto e constitui uma grande unidade.A terra encontra-se no começo e no fim de toda a vida. Toda a forma nasce dela, viva, e retorna para ela no momento em que a parte de vida que lhe tinha sido concedida se esgotou. OBALUWAYE está relacionado à terra e à tudo o que dela advém, ao retorno, ao pó, à transformação, à regeneração, ao renascimento, pois é sabido que "tudo o que sai da terra é dotado de vida e tudo o que volta para a terra é de novo provido de vida".TB é um vodun Gêge conhecido por Sapatá, sendo também cultuado por outras nações. Poderoso orixá, filho de Nanan Buruku (Anabioko) e Orixalá (Oulissassa).Esse orixá, senhor das doenças e da morte, é representado pelas três cores primitivas do universo (de onde todas se formaram), que são o vermelho, o preto e o branco. Isso quer dizer que ele detém os três tipos de sangue, ou axés, que existem na natureza.Obaluayê está ligado ao elemento terra, sendo detentor de seus segredos. Tem, também, ligação com as árvores e com os espíritos que as habitam.Ele é extremamente temido e respeitado, mas, ao mesmo tempo, é indispensável, com uma atuação muito grande dentro dos rituais do Candomblé. Todos o temem, por enviar as doenças, muitas vezes, como castigo ou como desígnios divinos para uma renovação da vida. Da mesma forma que ele traz as enfermidades (como lepra, peste, eczemas, varíola, malária, etc., que provocam alteração na temperatura corporal), traz também a cura para elas.Segundo as antigas lendas, Obaluayê nasceu com o corpo todo coberto por chagas, que ficavam escondidas sob suas vestes de palha. Foi através da sua própria força interior que ele conseguiu curar-se e também desvendar os segredos das doenças que atingem os seres criados. Assim como Ossain, que usa as folhas para curar, Obaluayê usa seu xaxará para limpar a Terra de todas as doenças e pragas.
Esse orixá também tem um papel fundamental nos ebós realizados pelo Candomblé, que são rituais especificamente utilizados para afastar espíritos obsessores ou influências maléficas. É Omulu quem vai fazer afastar essa negatividade e trazer energia positiva para essa pessoa. Depois do ebó, ou limpeza, é imprescindível que se faça uma oferenda para esse orixá. Obaluayê tem um grande poder sobre os eguns (espíritos desencarnados) e ancestrais, controlando-os com seu xaxará. Ele é um ser tão misterioso quanto a própria morte, com a qual tem uma íntima ligação. Conhece todos os seus segredos, sendo muitas vezes confundido com Ikú, o senhor da morte. Omulu é quem faz a limpeza do corpo logo após a morte, permitindo, assim, que as pessoas falecidas se desprendam desse plano de existência. Por esse motivo, é denominado "o senhor das coisas pútridas".Na África, ele é venerado e temido por seus desígnios, sendo considerado uma figura repressora e perigosa, que pode trazer facilmente a morte, mas, por outro lado, é o grande redentor de todas as mazelas que atingem os seres humanos. Ele é cultuado e adorado com todo o respeito, evitando-se, inclusive, pronunciar seu nome sem um motivo real.As vestes desse vodun são muito especiais e de extrema importância para o seu culto. Suas sacerdotisas ou noviços vestem-se com palhas da costa, não deixando transparecer nenhum detalhe de seu corpo. São figuras misteriosas e austeras, que escondem os segredos da reciclagem da vida. Seu principal símbolo é o xaxará, feito com a palha extraída da folha da palmeira nova; o lagidigbá, feito com o fruto da palmeira ou de chifre de búfalo; e o brajá, cordão confeccionado inteiramente com búzios. Além disso, ele também usa um longo cajado, onde se prendem as três cabaças que contêm os segredos da criação. Esse cajado é muito importante para os feiticeiros dahomeanos. No mês de agosto, nas tradicionais casas de Candomblé do Brasil, são realizadas cerimônias em sua homenagem. Nesse mesmo período, também são reverenciados Nanan e Obessen.Os desígnios de Obaluayê nos faz refletir sobre o valor da vida humana e o quanto ela é frágil. Infelizmente, o ser humano só dá valor ao que tem quando está perdendo, como a saúde, por exemplo.
CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE OBALUWAE
São pessoas que ocultam sua individualidade sob uma máscara de austeridade.Têm muita dificuldade em se relacionar, pois são muito fechados e de pouca conversa.Geralmente apaixonam-se por pessoas totalmente diferentes de si próprias, isto é, por figuras extrovertidas e sensuais. Gostam de ver o ser amado brilhar, embora o invejem.Os filhos de Obaluayê são irônicos, secos e diretos. Não são pessoas de levar desaforos para casa e nem de falar pelas costas.Odeiam fofocas e vulgaridades do gênero.A solidão é muito peculiar a essas pessoas, devido à sua própria personalidade.Não se sentem satisfeitos quando a vida corre normalmente, precisam mostrar seu sofrimento, exagerando, muitas vezes, nesse tipo de comportamento.São pessoas firmes e decididas, que lutam para conseguir seus objetivos.Geralmente, não sentem medo da morte, pois, no fundo de seu ser, compreendem que ela é apenas uma renovação.Os descendentes desse orixá são muito independentes e têm a necessidade de crescer com suas próprias forças e recursos.Apresentam pouco brilho em seu rosto e um semblante sério, com raros momentos de descontração. Parece que eles carregam, sobre os ombros, todo o sofrimento do mundo. Adoram fazer caridade e aliviar o sofrimento das pessoas.Os filhos de Obaluayê têm muita afinidade com profissões ligadas à área médica.Muitas dessas pessoas, devido à influência do seu orixá, que comanda os eguns, podem ter experiências sobrenaturais, como visões, sonhos, etc.Uma característica negativa, que pode aparecer nos filhos de Obaluayê, é o masoquismo.
LENDAS DE OBALUWAYE
Nana, esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz!Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos.Yemonjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho.Com seu grande instinto maternal, Yemonjá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas.Obaluayê cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas.Oyá, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Obaluayê, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam.Quando a poeira assentou, Oyá pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido.Uma outra lenda nos mostra que esse poderoso orixá, em suas andanças pelo mundo, pode presenciar o desenrolar de muitas guerras. Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Obaluayê não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos.As lutas traziam muita dor e destruição, e ninguém mais sabia dar o devido valor à vida humana. Os homens só pensavam em seus interesses materiais.Obaluayê, indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter.O poderoso orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença.De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras.As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte.Um babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Obaluayê havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Desta vida nada se leva, a não ser o conhecimento e a experiência que acumulamos.Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade. Mas, infelizmente, nem todos agiram assim.Talvez, por isso, existam tantos povos africanos vivendo do mesmo jeito há milhares de anos, tentando não se desligar da natureza.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Ògún yè , Ògún pàtàkì orí - Salve Ògún , Òrixá importante da cabeça espiritual

Ogun Senhor Deus da guerra, dono do trabalho porque possui todas as ferramentas como seus símbolos. Deus do fogo ou aço em que são forjados os instrumentos como espada, a faca, a enxada, a ferradura, a lança, o martelo, a bigorna, a pá, etc. É o dono do Obé (faca) por isso vem logo após o Bará porque sem as facas que lhe pertencem não seriam possíveis os sacrifícios. É irmão de Bará, sua conta é sete, quatorze e vinte e um. Ogum é o dono das estradas de ferro e caminhos.Protege também as portas de entrada das casas e templos. Ogum é protetor dos militares, soldados, ferreiros, trabalhadores e agricultores. Sua saudação é ogunhê. Suas ferramentas são: Ponteiras, bigorna, machado, pá, martelo, marreta, lança, cobra de bote, espada, enxada, ferradura, corrente de aço, cravos de ferradura, búzios, moedas, tenaz e torquês. Ogun é o que vem primeiro, o que está sempre à frente, um líder nato. Ele conhece e domina todos os caminhos, por isso nunca se perde e está sempre ajudando, quando corretamente evocado. É detentor do metal ferroso, com o qual fabrica suas armas e ferramentas com muita habilidade. Tornou-se especialista nessa arte, pois, a cada caminho que desbravava, ou a cada guerra que empreendia, precisava inventar uma ferramenta apropriada. Isso provocou uma grande revolução nesse meio, pois, com o advento do ferro, as antigas ferramentas de madeira e pedra lascada ficaram obsoletas, sendo substituídas pela precisão desse metal. Isso despertou o interesse dos outros orixás, que vieram aprender, com Ogun, essa técnica. Costuma-se colocar, em seus assentamentos, uma bigorna para realçar essa habilidade. Ogun representa o trabalhador manual, aquele que transforma a matéria prima em produto acabado. É o senhor da guerra, que, por vezes, se enfurece, devastando tudo que atrapalhar seu caminho. Ele derrota o inimigo em seu campo de batalha. Sua ira é incontrolável! A guerra que Ogun trava nem sempre é destruidora. Ao contrário, se essa energia for bem canalizada, poderá ser utilizada para alcançar objetivos nobres, traçar novas diretrizes e vencer os obstáculos da vida. Além de poderoso guerreiro, é também um exímio caçador, assim como Odé, seu irmão. Ogun, que conhece os caminhos como ninguém, sabe onde encontrar sua caça. Ele não fica parado esperando, vai atrás dela, até conseguir capturá-la. É protetor da agricultura, juntamente com o orixá Oko, reinando nas profundezas da terra, onde irá fertilizá-la com seu extremo poder. Ogun tem uma ligação muito grande com o orixá Exú, sendo, às vezes, confundido com ele. A confusão existe porque os dois orixás dominam todos os caminhos e estão sempre na dianteira. É Exú quem consegue aplacar a ira de Ogun. Por causa da violência desse orixá, não se deve evocá-lo para a destruição, pois, se ele não encontrar o inimigo, irá voltar-se contra quem o chamou. As folhas da palmeira, ou mariwo, são muito apreciadas por ele, fazendo parte de sua indumentária.





Descendente direto de Ògún ( Ekiti Nigéria ) e Santuáriode Ògún ( África )

LENDAS DE OGUN

Ogun vivia em sua aldeia, quando foi requisitado para uma guerra, que não tinha data para acabar. Antes de partir, ele exigiu que seus habitantes dedicassem um dia em sua homenagem, fazendo o sacrifício de jejuar e fazer silêncio absoluto, além de outras oferendas. Partiu, em sua longa jornada, para os campos de batalha, onde permaneceu sete anos. No regresso à sua aldeia, caminhou durante muitos dias, sentindo muito cansaço. A fome e a sede também o atormentavam. Na primeira casa que encontrou pediu água e comida, mas ninguém o atendeu, permanecendo calados e de olhos fixos no chão. Resolveu, então, fazer outra tentativa na próxima casa, mas a cena foi a mesma, o que despertou sua ira. Ele esbravejou com os moradores, exigindo que falassem com ele, mas ninguém o fez. Não se conformava com tamanha falta de respeito, depois de ter lutado tanto! Ogun esperava uma recepção calorosa em sua própria aldeia, mas, ao contrário, só encontrou silêncio. À medida que avançava pelo interior da cidade, a mesma coisa se repetia, casa após casa. Ogun nem imaginava o que estava acontecendo. Perguntava e não recebia resposta. Sua ira já estava incontrolável, quando chegou ao centro do povoado, onde haviam muitas pessoas. Estranhou o fato de ninguém estar conversando. Perguntou a eles onde estavam suas famílias, mas não obteve resposta. Era uma afronta! Foi assim que, evocando todos os seus poderes, Ogun dizimou sua própria aldeia.
Caçadores que passavam pela cidade, entre eles seu filho, o reconheceram e tentaram aproximar-se. Vendo que sua cólera era imensa, resolveram evocar Exú para acalmá-lo. A ira desse orixá finalmente foi aplacada. Seu filho, indignado ao ver tanta destruição, indagou o motivo que levou seu pai a cometer tal atrocidade. Ogun respondeu que aquelas pessoas lhe faltaram com respeito quando não o reconheceram. Precisavam de um castigo. Foi, então, que seu filho fez-lhe lembrar da exigência que fizera antes de partir para a guerra. Ogun, tomado pelo remorso, devido à sua crueldade com pessoas que só estavam obedecendo ordens, abriu o chão com sua espada enterrando-se de pé.

Lògún ó akofà - Ele é Lògún, peguemos o arco e a flecha



É um orixá cultuado na região de Ijesá, ( Ijexá ) na Nigéria. Segundo a mitologia, Logun é filho de outros dois orixás, que são Oxun Ipondá e Odé Erinlé (ou Imbualama). É considerado o príncipe dos orixás. Possui o conhecimento dos elementos da natureza, onde reinam seus pais, como florestas, matas, rios, cachoeiras, etc. Seu próprio domínio está situado nas margens de rios, córregos e cursos d’água em geral, desde que tenham vegetação, ou seja, o encontro dos dois reinados. Esse orixá vem sendo erroneamente associado à dualidade sexual. Muitos estudiosos no assunto afirmam que Logun vive seis meses como homem, igual ao seu pai Odé, e, nos outros seis meses, transforma-se numa mulher, como sua mãe Oxun.
Logun é um orixá soberano e não passa por transformações sexuais. Isso acontece, com freqüência, aqui na Terra, com os seres humanos. Os orixás estão anos-luz adiante dessas questões.
Na verdade, esse orixá tem livre acesso aos dois reinados, adquirindo o conhecimento de ambos. Consegue adaptar-se, com facilidade, aos mais diversos ambientes, agindo e comportando-se de diferentes formas, dependendo da situação.
Ele herdou, também, muitas das características de seus pais, como a habilidade de caçar e conseguir fortuna, o encanto e a beleza, bem como um grande conhecimento de feitiçaria, como sua mãe. Além desses atributos, é, também, responsável pela fertilização das terras, através da irrigação, contribuindo, assim, com a agricultura. Esse orixá possui muita riqueza e sabedoria, não admitindo a imperfeição em suas oferendas e rituais. Tem aparência doce e calma, mas, quando contrariado, torna-se muito enfurecido. Uma outra característica de Logun é a de importar-se com o sofrimento dos outros, distribuindo riquezas e caças para os que não têm. Suas ferramentas são o abebe e o ofá. Seu símbolo é uma balança, representando o equilíbrio. Esse deus, segundo se conta na África,tem aversão por roupas vermelhas ou marrons. Nenhum dos seus adeptos ousaria utilizar essas cores no seu vestuário. O azul-turquesa entretanto parece ter sua aprovação.

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE LOGUN-EDÉ

São pessoas de extremo charme e carisma, possuindo muitos amigos e admiradores.Sentem imensa compaixão pelas pessoas que sofrem, sempre tentando ajudá-las. A sinceridade é a sua maior virtude, porém irrita-se com muita facilidade. Basta ser contrariado e sua fúria aparece, muitas vezes perdendo o controle de suas ações, custando muito a acalmar-se. São perfeccionistas, querendo tudo ao seu modo. Não admitem erros por parte de outras pessoas.Agem por impulso, aproveitando ao máximo tudo o que a vida lhe oferece. São muito curiosos e espertos. Geralmente, quando crianças, adoram desmontar seus brinquedos para ver como são feitos. Na fase adulta, têm o dom de captar o íntimo das pessoas. Os filhos de Logun têm muito interesse em aprender e viver novas experiências. Assim como o orixá, adaptam-se a todo tipo de ambiente e sabem como agir em cada situação. Têm uma característica curiosa, que é a de estar sempre machucando as extremidades das mãos, pés e cabeça.

LENDAS DE LOGUN

No início dos tempos, cada orixá dominava um elemento da natureza, não permitindo que nada, nem ninguém, o invadisse. Guardavam sua sabedoria como a um tesouro. É nesse contexto que vivia a mãe das água doces, Oxun, e o grande caçador Odé. Esses dois orixás constantemente discutiam sobre os limites de seus respectivos reinados, que eram muito próximos. Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta. Oxun argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação. Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses reinados, para tentar apaziguá-los. A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras. Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro lugar. Oxun, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com a companhia de seus filhos peixes para confortá-la. Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada. Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação. Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxun, propondo a ela uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira tentativa. Oxun queria que Odé se desculpasse, reconhecendo suas qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun. Dessa união nasceu um novo orixá, um orixá príncipe, Logun-Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais. Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a paz e a fertilidade.

Òsóòsí Ode òkè àró - Salve o Caçador



É o orixá caçador, que vive nas florestas e nas terras verdes não cultivadas. Está associado à lua e à noite, por ser o melhor momento para a caça. Sua técnica consiste em esperar, pacientemente, a preza aproximar-se para, então, deferir seu tiro certeiro.

Orixá poderoso, encantado do maior respeito, suas festas são de grande beleza e opulência. Uma delas, a das Quartinhas de Oxossi, no candomblé do Gantois, onde reina a veneranda Mãe Menininha, é inesquecível espetáculo.

Sua principal ferramenta é o ofá (arco) e a flecha, muito utilizados em sua arte. Acredita-se que esse orixá conhece o segredo do nosso planeta, pois os dois hemisférios (norte e sul), quando separados, assemelham-se ao seu arco.

Outra ferramenta importante é o erukerê, objeto sagrado feito com o rabo de búfalo, utilizado, especialmente, para a magia. Seus poderes mágicos são muito importantes, através dos quais os caçadores enfrentam os seres encantados que habitam as florestas. O erukerê, que é detentor de "axé", também serve para espalhar a fertilidade pelo mundo. Na mitologia yorubana, Odé é filho de Yemonjá e irmão de Ogun, que, assim como ele, adora a liberdade. É muito confundido com a caçadora Oxóssi, seu correspondente feminino. Ambos estão relacionados à fartura, prosperidade e à eterna convivência com a natureza. Odé tem como missão trazer caça para todos os povos do mundo. A caça simboliza o alimento necessário para a sobrevivência das espécies e, também, a busca de novos caminhos para o desenvolvimento. A atividade de caçador sempre foi considerada pioneira e muito importante, trazendo para seus integrantes uma posição de destaque entre os seus. Devido à sua principal atividade, Odé permanece muito tempo isolado, concentrando-se totalmente na tarefa que está desempenhando. Odé também é reverenciado durante os rituais de colheita e de fertilização do solo.


CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE ODÉ

O arquétipo de Oxóssi é o das pessoas espertas, rápidas, sempre alerta e em movimento. São pessoas cheias de iniciativa e sempre em vias de novas descobertas ou de novas atividades. Têm o senso da responsabilidade e dos cuidados para com a família. São generosas, hospitaleiras e amigas da ordem, mas gostam muito de mudar de residência e achar novos meios de existência em detrimento, algumas vezes, de uma vida doméstica harmoniosa e calma. A determinação e a paciência para aguardar o momento certo de agir, fazem parte da sua personalidade. São joviais, rápidos e espertos, sempre com um olhar atento e vivo. Possuem um corpo esguio, sendo geralmente magros e pouco musculosos. Suas mãos são delgadas e finas. Movimentam-se quase que flutuando, com muita leveza no andar. É um orixá de pessoas presas ao cotidiano e de homens comuns, que não sonham muito. Alguns filhos desse orixá possuem muita criatividade e dons artísticos.

LENDAS DE ODÉ
Na cidade de Ifé, realizavam-se festividades e rituais por ocasião das colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas conhecidas: as Iya-mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar aquela aldeia. A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a cidade. Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro. Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era tarde demais para isso. Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador era Odé. Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação a ele. Consultando um babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu filho corria grande perigo. Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo venerado por esse povo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

ESÙ O MENSAGEIRO


Exú é um Deus da mitologia iorubá e afro-brasileira. É a divindade mais controversa do panteão afro-brasileiro, talvez por ser o mais intrinsicamente humano de todos os orixás. Ele é o Mensageiro dos Deuses, seu poder é o de receber e transportar os pedidos e oferendas dos seres humanos ao Orum, o mundo dos Deuses. É o Senhor do caminhos, das encruzilhadas, das trocas comerciais e de todo tipo de comunicação. Exú também é conhecido como Legbá, Elegbá, Eleguá (nos países de língua espanhola) e Bará. Conta um mito que Exú Yangi foi a primeira divindade a adquirir existência individual.

'' O ar e as águas moveram-se conjuntamente e uma parte deles mesmos transformou-se em lama. Dessa lama originou-se uma bolha ou montículo, primeira matéria dotada de forma,
um rochedo avermelhado e lamacento. OLORUN admirou esta forma e soprou sobre o montículo, insuflando-lhe Seu Hálito e lhe deu vida. Desta forma, a primeira dotada de existência individual, um rochedo de Laterita, era Esu Yangi. ''


Por isso, ele é o movimento inicial e dinâmico que leva à propulsão, ao crescimento e à multiplicação. Não se sabe ao certo sua região de origem na África, porém seu culto é universal. Segundo um mito, Oxalá, o Deus Criador, estava para criar o universo, mas enfrentava diversas dificuldades diante de tão grandioso feito. Então, Exú o aconselhou a fazer o sacrifício de cento e um pombos como ebó. O sangue dos pombos purificaria todas as anormalidades. Quando Oxalá ouviu isso estremeceu, pois sua própria vida está ligada à vida dos pombos. No entanto, para que a grandiosa obra fosse levada a cabo, decidiu aceitar o conselho de Exú. Ele guiou Oxalá a todos os lugares onde o sangue deveria ser vertido para que tudo fosse devidamente purificado. O conselho e a ajuda de Exú funcionaram; o universo estava prestes a ser criado. Então, Oxalá agradeceu a Exú e decretou que, daquele dia em diante, Exú fosse sempre louvado antes de qualquer empreitada por toda a eternidade.


Sendo princípio e desordem criativa, Exú também provoca confusão e arma encrencas. Outro mito relata que dois camponeses puseram-se a trabalhar cedo em suas lavouras, mas esqueceram-se de prestar contas a Exú. Ele que os havia ajudado tanto nas colheitas ! Então, ele colocou um boné pontudo, de um lado branco e do outro vermelho, e caminhou na divisa das roças, entre os dois camponeses. Ele os cumprimentou e passou. Então, um perguntou quem era o homem de barrete vermelho; e o outro disse que o barrete era branco. Ficaram discutindo sobre a cor do boné até perderem as estribeiras e começaram a brigar. Exú cantava e dançava.
O sincretismo segundo o qual Exú seria o Diabo cristão não começou aqui. Os primeiros colonizadores europeus na África já o associavam a Príapo ou o viam como a encarnação malévola do maniqueísmo cristão. Em artigo sobre a demonização desse orixá e dos cultos afro-brasileiros, Reginaldo Prandi observa:


'' O sincretismo não é, como se pensa, uma simples tábua de correspondência entre orixás e santos católicos, assim como não representava o simples disfarce católico que os negros davam ao seus orixás para poder cultuá-los livres da intransigência do senhor branco, como de modo simplista se ensina nas escolas até hoje (Prandi, 1999). O sincretismo representa a captura da religião dos orixás dentro de um modelo que pressupõe, antes de mais nada, a existência de dois pólos antagônicos que presidem todas as ações humanas: o bem e o mal; de um lado a virtude, do outro o pecado. Essa concepção, que é judaico-cristã, não existia na África. As relações entre os seres humanos e os deuses, como ocorre em outras antigas religiões politeístas, eram orientadas pelos preceitos sacrificiais e pelo tabu, e cada orixá tinha suas normas prescritivas e restritivas próprias aplicáveis aos seus devotos particulares, como ainda se observa no candomblé, não havendo um código de comportamento e valores único aplicável a toda a sociedade indistintamente, como no cristianismo, uma lei única que é a chave para o estabelecimento universal de um sistema que tudo classifica como sendo do bem ou do mal, em categorias mutuamente exclusivas. ''


A idéia de um mal absoluto é estranha não só aos povos africanos, mas também a outros como os hindus e os orientais, por exemplo. Nas religiões desses povos todos não há uma figura como o demônio judaico-cristão, não há uma guerra declarada entre um bem absoluto e um suposto mal absoluto. Assim como no Budismo e no Hinduísmo, no Candomblé não há a idéia de mal absoluto ou pecado. Bom ou mau são apenas conceitos relativos e intercambiáveis nessas religiões. O que pode ser bom num momento pode tornar-se mau no outro. Pode-se dizer que bom e mau são faces da mesma moeda jogada no tempo e no espaço. Nessas religiões, o ser humano é visto como mais um filho da natureza que, para seu próprio bem, tem de viver em harmonia com ela e com o sagrado que também está nela assim como nele. A natureza não é vista como algo corrompido ou impuro e o ser humano não está exilado, fora dela, ele está nela e é mais um de seus filhos. Talvez sua associação ao Diabo cristão também derive do fato de que Exú é um Deus fálico. Ele representa a fertilidade da vida, o poder sexual, reprodutivo e gerativo, mas como o sexo está sempre relacionado ao pecado e à luxúria no ideário cristão, fica fácil entender de onde vem a tal interpretação deturpada. Nas “religiões da natureza”, o sexo é um ato sagrado. E se ele é sagrado, seus frutos também são. A noção de pecado original seria uma aberração nesse sistema religioso; além disso, um dos ideais do estilo de vida iorubano era ter uma família numerosa e, portanto, o culto a Exú fazia-se essencial. Estátuas que o apresentam com um falo ereto são comuns tanto na África quanto aqui. Ele também é representado pictoricamente com cabelo em forma fálica e portando um bastão de formato fálico, o ogó, e algumas cabaças, que representam os testículos. O ado iran, uma cabaça arredondada de pescoço longo, também é um de seus símbolos. Ela contém o axé, a energia mágica criadora e primordial; basta que ele aponte a cabaça para que o axé seja dispersado.

Como é o intérprete e mediador entre o sagrado e o humano, Exú também rege o jogo de búzios. Esta modalidade divinatória é o principal instrumento de consulta de babalorixás e ialorixás. Diz um mito que Exú era o único que tinha o poder divinatório, mas decidiu compartilhá-lo com Ifá em troca de receber as oferendas e pedidos antes de qualquer outro orixá.
Reza um mito que Exú era filho de Orunmilá, o orixá oracular. O menino Exú tinha fome e começou a devorar tudo que estava a sua frente. Chegou a devorar a própria mãe e foi em direção ao pai. Orunmilá, então, pegou uma espada e foi em direção a Exú, que comecou a correr. Correram pelos nove Orum, a morada dos Deuses, e toda vez que Orunmilá o alcançava, cortava Exú em duzentos e um pedaços, ou seja, em milhares de pedaços incontáveis, que se transformaram em outros Exús. Finalmente fizeram um pacto segundo o qual Exú seria o mensageiro de Orunmilá desde que fosse louvado em primeiro lugar. Este mito ensina que Exú, apesar de ser um, está em todo lugar e em todos os seres. A palavra Exú (em iorubá, Èsù) pode ser traduzida como esfera. O simbolismo do círculo é muito antigo e encontrado em várias culturas: ele representa o infinito, o que não tem começo nem fim e está em todos os lugares… Como se vê, Exú é a base sobre a qual se constrói o edifício filosófico-religioso iorubano. Sem ele, não há como chegar aos outros Orixás; sem ele, não há como chegar ao Deus Supremo, Olorum.
Exú também tem os seguintes epítetos ou atributos: Exú Lonan, o Senhor dos Caminhos; Exú Osije-Ebo, o Mensageiro Divino, Exú Bará, o Senhor (do movimento) do Corpo; Exú Odara, Senhor da Felicidade; Exú Eleru, o Senhor da Obrigação Ritual; Exú Yangi, o Senhor da Laterita Vermelha; Exú Elegbara, o Senhor do Poder da Transmutação; Exú Agba, aquele que é o ancestral; Exú Inã, o Senhor do Fogo.

Um mito muito significativo conta que todos temiam Exú e não havia ninguém corajoso o suficiente que ousasse enfrentá-lo. Ao saber disso, Icú, a Morte, enviou-lhe uma mensagem para que se enfrentassem num duelo. Exú foi a seu amigo Ifá e contou-lhe sobre o desafio. Ifá disse que ninguém podia com a Morte; Exú respondeu que ninguém podia com ele ! Quando o dia marcado chegou foi aquele alvoroço. Todos correram para ver o duelo. Exú bradou seu grito de guerra e foi de encontro a Icú. Embora Exú fosse um lutador forte e habilidoso, Icú era rápido e ágil. Finalmente ele tomou o porrete de Exú e, quando o ergueu para matá-lo, Ifá interveio e tomou-lhe o porrete. Desde então, os homens dizem que Icú, a Morte, é invencível. Esse mito ensina que embora Exú não possa derrotar a Morte, ele é a afirmação da vida.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Orixás são Energias da Natureza


Prof. Reginaldo Prandi
Universidade de São Paulo

Na aurora de sua civilização, o povo africano mais tarde conhecido pelo nome de iorubá, chamado de nagô no Brasil e lucumi em Cuba, acreditava que forças sobrenaturais impessoais, espíritos, ou entidades estavam presentes ou corporificados em objetos e forças da natureza. Tementes dos perigos da natureza que punham em risco constante a vida humana, perigos que eles não podiam controlar, esses antigos africanos ofereciam sacrifícios para aplacar a fúria dessas forças, doando sua própria comida como tributo que selava um pacto de submissão e proteção e que sedimenta as relações de lealdade e filiação entre os homens e os espíritos da natureza. Muitos desses espíritos da natureza passaram a ser cultuados como divindades, mais tarde designadas orixás, detentoras do poder de governar aspectos do mundo natural, como o trovão, o raio e a fertilidade da terra, enquanto outros foram cultuados como guardiões de montanhas, cursos d'água, árvores e florestas. Cada rio, assim, tinha seu espírito próprio, com o qual se confundia, construindo-se em suas margens os locais de adoração, nada mais que o sítio onde eram deixadas as oferendas. Um rio pode correr calmamente pelas planícies ou precipita-se em quedas e corredeiras, oferecer calma travessia a vau, mas também mostra-se pleno de traiçoeiras armadilhas, ser uma benfazeja fonte de alimentação piscosa, mas igualmente afogar em suas águas os que nelas se banham. Esses atributos do rio, que o torna ao mesmo tempo provedor e destruidor, passaram a ser também o de sua divindade guardiã. Como cada rio é diferente, seu espírito, sua alma, também tem características específicas. Muitos dos espíritos dos rios são homenageados até hoje, tanto na África, em território iorubá, como nas Américas, para onde o culto foi trazido pelos negros durante a escravidão e num curto período após a abolição, embora tenham, com o passar do tempo, se tornado independentes de sua base original na natureza. São eles Iemanjá, divindade do rio Ogum, Oiá ou Iansã, deusa do rio Níger, assim como Oxum, Obá, Euá, Logum Edé, Erinlé e Otim, cujos rios conservam ainda hoje o mesmo nome de sua divindade. No Brasil, assim como em Cuba, Iemanjá ganhou o patronato do mar, que na África pertencia a Olocum, enquanto os demais orixás de rio deixaram de estar referidos a seus cursos d'água originais, ganhando novos domínios, cabendo a Oxum o governo dos rios em geral e de todas as águas doces. A economia desses povos desenvolveu-se com base na agricultura, caça, pesca e artesanato, com intensa e importante atividade comercial concentrada nos mercados das cidades, para onde acorria a produção das diferentes aldeias e cidades. Podemos ver nessa sociedade em formação um deslocamento dos orixás do plano dos fenômenos da natureza para o plano da divisão social do trabalho, assumindo os orixás a característica de guardiões de atividades essenciais para a vida em sociedade. O culto às divindades continuou sendo local, podendo a mesma atividade ser guardada por deuses locais distintos. Só muito mais tarde alguns orixás foram elevados à categoria de orixás nacionais. Assim, na agricultura encontramos o culto a Ogum e Orixá-Ocô, enquanto as atividades de caça estavam guardadas por Oxóssi, Logum Edé, Erinlé, e muitos outros orixás caçadores conhecidos genericamente pelo nome de Odé, que significa Caçador. No Brasil, onde a geografia africana deixou de ter sentido, alguns orixás de rio, como Logum e Erinlé, ficaram restritos à caça, embora se faça referência também a seus atributos de pescadores, especialmente no caso de Logum Edé. No caso de Ogum, há uma relação direta entre a agricultura e o artesanato do ferro, que permitiu a produção das ferramentas agrícolas, o mesmo ferro com que se fazem as armas de guerra, faca, facão, espada, e que transformou Ogum no deus da metalurgia e da guerra, numa emblemática expansão de um culto que se iniciou em referência ao plano da natureza (o ferro) para depois se fixar no domínio das atividades humanas (agricultura, metalurgia, guerra). A importância do minério extraído da natureza define-se por sua aplicação na cultura e leva à constituição de um culto que ao mesmo tempo deseja propiciar as forças sobrenaturais para garantir o acesso ao minério e o sucesso nas atividades que usam artefatos com ele produzidos. Quanto mais o trabalho se especializava, mais o orixá se liberava do mundo natural e mais próximo se situava do mundo do trabalho, isto é, do mundo da cultura, das atividades sociais, do mundo do homem, enfim. A antiga religião de caráter animista, ou seja, de crença de que cada objeto do mundo em que vivemos é dotado de um espírito, em algum momento primordial fundiu-se-se com o culto dos antepassados. Podemos definir o culto dos antepassados como o conjunto de crenças, mitos e ritos que regulam os vínculos de uma comunidade com um número grande de mortos que viveram nessa comunidade e que estão ligados a ela por parentesco, segundo linhagens familiares, acreditando-se que os mortos têm o poder de interferir na vida humana, devendo então ser propiciados, aplacados por meio das práticas sacrificiais para o bem-estar da comunidade. Através do sacrifício, o antepassado participa da vida dos viventes, compartilhando com eles o fruto do sucesso das colheitas, das caçadas, da guerra e assim por diante. Embora todo morto mereça respeito e sacrifício, são os mortos ilustres os que se colocam no centro do culto. São os fundadores das antigas linhagens familiares, os heróis conquistadores, fundadores de cidades, o que inclui os falecidos pertencentes à família real, especialmente o rei. Alguns antepassados, sobretudo os de famílias e cidades que lograram expandir seu poder e seu domínio além de seus muros, acabaram sendo hevemerizados, isto é, deificados, ocupando no universo religioso o mesmo status de um orixá da natureza, muitas vezes confundindo-se com eles. Assim, Xangô é ao mesmo tempo o orixá do trovão, que rege as intempéries, e o antepassado mítico hevemerizado que um dia teria sido o quarto rei da cidade de Oió. Como rei, é o regulador das atividades ligadas ao governo do mundo profano, do qual é o magistrado máximo, assumindo assim, o patronato da justiça. Muitos reis, míticos ou não, foram alçados à dignidade de orixá. Por outro lado, muitos orixás que já mereciam culto ganharam também a conotação de antepassado, especialmente como reis. Como ocorreu com Ogum, lembrado como rei de Irê e Oxaguiã, rei de Ejibô, entre outros. Confrarias de sacerdotes especializados também se organizaram em função de divindades relacionadas a atividades mágico-religiosas específicas, como os adivinhadores ou babalaôs, reunidos no culto de Orunmilá ou Ifá, o deus do oráculo, e os curadores herbalistas, ou olossains, dedicados a Ossaim, o orixá que detém o poder curativo das plantas. Tanto Orunmilá como Ossaim tiveram culto nacional em território iorubá, uma vez que seus sacerdotes ofereciam seus serviços a todos os que deles precisassem, não estando suas atividades circunscritas aos cultos familiares ou de cidades. Exu, orixá do mercado e da comunicação entre os deuses e entre estes e os humanos, também ganhou culto sem fronteiras familiares ou citadinas. Com a expansão política de algumas cidades e a incorporação de outros territórios, deuses locais passaram a ter um culto mais generalizado, o que transformou Xangô num deus cultuado em todo o território controlado por Oió, que teve o maior dos impérios iorubás. Iemanjá, originalmente uma divindade ebgá de rio, cultuada em território de Abeocutá, transformou-se em objeto do culto às ancestrais femininas, sendo homenageada no início dos festejos dedicados às grandes mães ancestrais no festival Geledé, cuja celebração envolve várias cidades. Através da instituição do culto aos antepassados, os antigos iorubás estabeleceram as bases míticas de sua própria origem como povo, deificando seus mais antigos heróis, fundadores de cidades e impérios, aos quais se atribuiu a criação não somente do povo iorubá como de toda a humanidade. Dá-se assim a gênese do orixá Odudua, rei e guerreiro, considerado o criador da Terra, e de Obatalá, também chamado Orixanlá e Oxalá, o criador da humanidade, além de muitos outros deuses que com eles fazem parte do panteão da criação, como Ajalá e Oxaguiã. O contato entre os povos africanos, tanto em razão de intercâmbio comercial como por causa das guerras e domínio de uns sobre outros, propiciou a incorporação pelos iorubás de divindades de povos vizinhos, como os voduns dos povos fons, chamados jejes no Brasil, entre os quais se destaca Nanã, antiga divindade da terra, e Oxumarê, divindade do arco-íris. O deus da peste, que recebe os nomes de Omulu, Olu Odo, Obaluaê, Ainon, Sakpatá e Xamponã ou Xapanã, resultou da fusão da devoção a inúmeros deuses cultuados em territórios iorubá, fon e nupe. As transformações sofridas pelo deus da varíola, descritas por Claude Lépine (1998), até sua incorporação ao panteão contemporâneo dos orixás, mostra a importância das migrações e das guerras de dominação na vida desses povos africanos e seu papel na constituição de cultos e conformação de divindades. Quanto mais os orixás foram se afastando da natureza, mais foram ganhando forma antropomórfica. Os mitos falam de deuses que pensam e agem como os humanos, com os quais partilham sentimentos, propósitos, comportamentos e emoções. Seus patronatos especializaram-se em aspectos da cultura e da vida em sociedade que melhor atendiam às necessidades individuais dos seus devotos, embora possam manter referências ao original mundo natural.





Com a vinda para as Américas, ao processo de antropormofização e mudança ou diversificação do patronato adicionou-se a unificação do panteão, passando orixás de diferentes localidades a ser cultuados juntos nos mesmos locais de culto, no caso do Brasil, os terreiros de candomblé, ocorrendo mais forte especialização na divisão do trabalho dos deuses guardiões. Assim, Iemanjá, agora rainha do mar, é a protetora da maternidade e do equilíbrio mental; Oxum ganha as águas doces e a prerrogativa de governar a fertilidade humana e o amor; Ogum governa o ferro e a guerra, mas também é aquele que abre todos os caminhos e oportunidades sociais; Xangô, orixá do trovão, é o dono da justiça. E assim por diante. Como a religião dos orixás foi refeita no Brasil por africanos ou descendentes que, no século XIX, viviam nas grandes cidades costeiras, ocupando-se em atividades urbanas, fossem eles escravos ou livres, a preocupação com atividades agrícolas era muito secundária, de sorte que os orixás do campo foram esquecidos ou tiveram seus governos reorganizados. O culto a Orixá-Ocô se perdeu e hoje raramente alguém se lembra de Ogum como orixá do campo. Também os orixás da caça perderam com a nova sociedade. Oxóssi ganhou a responsabilidade de zelar pela fartura de alimentos, mas não há mais caçadores para cultuá-lo e muitos Odés foram reagrupados no culto de Oxóssi, como ocorreu com Erinlé e Otim. O grande papel de Oxóssi no Brasil na verdade decorre de sua condição de patrono da nação queto, instituída com a fundação dos candomblés baianos Casa Branca do Engenho Velho, Gantois e Axé Opô Afonjá, e que é uma referência à cidade africana de Queto, hoje situada no Benin, da qual Oxóssi era o orixá da casa real e onde atualmente está praticamente esquecido. Mudanças recentes nas condições de vida, inclusive em termos de saúde pública, fizeram de Omulu o médico dos pobres brasileiros, mas hoje ele está longe de ser cultuado por causa da varíola, seu domínio original, praticamente eliminada em nossa sociedade. No Brasil, com a concentração do culto aos orixás nos terreiros, sob a autoridade suprema do pai ou mãe-de-santo, antigas confrarias africanas especializadas desapareceram, uma vez que o pai-de-santo passou a controlar toda e qualquer atividade religiosa desenvolvida nos limites de sua comunidade de culto. Os orixás dessas confrarias foram esquecidos ou se transformaram. Assim, com a extinção dos babalaôs, os sacerdotes do oráculo, o culto a Orunmilá praticamente desapareceu, subsistindo marginalmente em alguns poucos terreiros pernambucanos. O oráculo, agora prerrogativa do chefe de cada terreiro passou a ser guardado por Exu e Oxum, que na África já eram estreitamente ligados às atividades de adivinhação. A confraria dos curadores herbalistas, os olossains, também não se manteve nos moldes africanos, ficando os olossains restritos às atribuições de colher folhas e cantar para sua sacralização, tendo perdido para o pai-de-santo as prerrogativas do curador. Em decorrência, o culto de Ossaim ganhou novas feições, ficando mais assemelhado ao culto dos outros orixás celebrados nos terreiros, podendo inclusive ser recebido em transe como os demais, o que não acontecia na África. Espíritos das velhas árvores foram antropormofizados e iroco, que na África é simplesmente o nome de uma grande árvore, aqui se transformou no orixá Iroco, que recebe oferendas na cameleira branca e desce em transe, ganhando, cada vez mais, independência em relação à árvore, situando-se, por conseguinte, mais longe da natureza. O desenvolvimento científico e tecnológico, ao promover a expansão do controle da natureza pelo homem, controle que vai desde a previsão das intempéries e catástrofes naturais até a obtenção da fecundação in vitro, passando pela cura da maioria das moléstias, garantindo a redução das taxas de mortalidade infantil, afastando as endemias e epidemias, aumentando a esperança de vida, tudo isso foi desviando cada vez mais o olhar do homem religioso da natureza, uma vez que esta já o preocupa menos, representando menos riscos, menos perigo. Diferentes povos tiveram diferentes preocupações com a natureza. Os iorubás, como povo da floresta, pouco se interessaram pelos astros, que ocuparam posição importante nos sistemas religiosos de povos que viviam em lugares abertos e altos. Para os iorubás, as florestas e os rios eram mais importantes que a lua ou as estrelas. Sua semana de quatro dias não tem relação com as fases da lua, que em muitos povos originou a semana de sete dias. Habitando o interior, longe do mar, lhes faltou certamente a observação da maré associada às fases da lua para estabelecer um calendário lunar. A morada dos deuses e dos espíritos dos iorubás, emblematicamente, não fica no céu, mas sob a superfície da terra. No Brasil, as referências à natureza foram, contudo, simbolicamente mantidas nos altares sacrificiais, que são os assentamentos dos orixás e em muitos outros elementos rituais. Desse modo, como a África, seixos provenientes de algum curso d'água não podem faltar no assentamento dos orixás de rio, confundindo-se as pedras com os próprios orixás. Pedaços de meteoritos, as pedras de raio do assento de Xangô, lembram a identificação deste orixá com o raio e o trovão. Objetos de ferro são usados para o assentamento de Ogum. E assim por diante. O candomblé também conserva a idéia de que as plantas são fonte de axé, a força vital sem a qual não existe vida ou movimento e sem a qual o culto não pode ser realizado. A máxima iorubá "kosi ewê kosi orixá", que pode ser traduzida por "não se pode cultuar orixás sem usar as folhas", define bem o papel das plantas nos ritos. As plantas são usadas para lavar e sacralizar os objetos rituais, para purificar a cabeça e o corpo dos sacerdotes nas etapas iniciáticas, para curar as doenças e afastar males de todas as origens. Mas a folha ritual não é simplesmente a que está na natureza, mas aquela que sofre o poder transformador operado pela intervenção de Ossaim, cujas rezas e encantamentos proferidos pelo devoto propiciam a liberação do axé nelas contido. Há algumas décadas a floresta fazia parte do cenário do terreiro de candomblé e as folhas estavam todas disponíveis para colheita e sacralização. Com a urbanização, o mato rareou nas cidades, obrigando os devotos a manter pequenos jardins e hortas para o cultivo das ervas sagradas ou então se deslocar para sítios afastados, onde as plantas podem crescer livremente. Com o passar do tempo, novas especializações foram surgindo no âmbito da religião e hoje as plantas rituais podem ser adquiridas em feiras comuns de abastecimento e nos estabelecimentos que comercializam material de culto. Exemplo maior, no Mercadão de Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, pródigo na oferta de objetos rituais, vestimentas e ingredientes para o culto dos orixás, mais de vinte estabelecimentos vendem, exclusivamente, toda e qualquer folha necessária aos ritos de Ossaim. Bem longe da natureza. Embora a concepção de orixá esteja hoje bem distante da natureza, muitas celebrações se fazem em locais que lembram as antigas ligações, como as festas de Iemanjá junto ao mar, como os depachos feitos na água corrente, na lagoa, no mato, na pedreira, na estrada etc., de acordo com o orixá a que se destinam. Com a recente preocupação com o meio ambiente, o candomblé tem sido muito lembrado como religião da natureza, apontando-se muitos terreiros como modelares na preservação ambiental. Alguns líderes, de fato, tem procurado se engajar em movimentos preservacionistas, alertando os seguidores dos orixás da necessidade de se defender da poluição ambiental locais usados pela religião, como cachoeiras e fontes, lagos e bosques. Alguns defendem a necessidade do próprio candomblé deixar de usar nas oferendas feitas fora do terreiro e nos despachos material não biodegradável. Nesse clima de "retorno ao mundo natural", de preocupação com a ecologia, um orixá quase inteiramente esquecido no Brasil vem sendo aos poucos recuparado. Trata-se de Onilé, a Dona da Terra, o orixá que representa nosso planeta como um todo, o mundo em que vivemos. O mito de Onilé pode ser encontrado em vários poemas do oráculo de Ifá, estando vivo ainda hoje, no Brasil, na memória de seguidores do candomblé iniciados há muitas décadas.

Representação de Onilé na África
Assim conta na mitologia dos Itans dos Orixás como Onilé ganhou o governo do planeta Terra:
Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumare.
Vivia trancada em casa do pai e quase ninguém a via.
Quase nem se sabia de sua existência.
Quando os orixás seus irmãos se reuniam no palácio do grande pai
para as grandes audiências em que Olodumare comunicava suas decisões,
Onilé fazia um buraco no chão e se escondia,
pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa,
com muita música e dança ao ritmo dos atabaques.
Onilé não se sentia bem no meio dos outros.
Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem:
haveria uma grande reunião no palácio
e os orixás deviam comparecer ricamente vestidos,
pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo
e depois haveria muita comida, música e dança.
Por todo os lugares os mensageiros gritaram esta ordem
e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento.
Quando chegou por fim o grande dia,
cada orixá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação,
cada um mais belamente vestido que o outro,
pois este era o desejo de Olodumare.
Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar,
os braços ornados de pulseiras de algas marinhas,
a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas,
o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola.
Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios,
enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais.
Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas.
Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante,
enfeitada com tenras folhas de palmeira.
Oxum escolheu cobrir-se de ouro,
trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios.
As roupas de Oxumarê mostravam todas as cores,
trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva.
Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento
e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade.
Xangô não fez por menos e cobriu-se com o trovão.
Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão
e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio.
E assim por diante.
Não houve quem não usasse toda a criatividade
para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita.
Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo.
Cada orixá que chegava ao palácio de Olodumare
provocava um clamor de admiração,
que se ouvia por todas as terras existentes.
Os orixás encantaram o mundo com suas vestes.
Menos Onilé.
Onilé não se preocupou em vestir-se bem.
Onilé não se interessou por nada.
Onilé não se mostrou para ninguém.
Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.
Quando todos os orixás haviam chegado,
Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente,
sentados em esteiras dispostas ao redor do trono.
Ele disse então à assembléia que todos eram bem-vindos.
Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo
e que estavam tão bonitos que ele não saberia
escolher entre eles qual seria o mais vistoso e belo.
Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles,
mas nem sabia como começar a distribuição.
Então disse Olodumare que os próprios filhos,
ao escolherem o que achavam o melhor da natureza,
para com aquela riqueza se apresentar perante o pai,
eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo.
Então Iemanjá ficava com o mar,
Oxum com o ouro e os rios.
A Oxóssi deu as matas e todos os seus bichos,
reservando as folhas para Ossaim.
Deu a Iansã o raio e a Xangô o trovão.
Fez Oxalá dono de tudo que é branco e puro,
de tudo que é o princípio, deu-lhe a criação.
Destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva.
A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele,
inclusive a guerra.
E assim por diante.
Deu a cada orixá um pedaço do mundo,
uma parte da natureza, um governo particular.
Dividiu de acordo com o gosto de cada um.
E disse que a partir de então cada um seria o dono
e governador daquela parte da natureza.
Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade
relacionada com uma daquelas partes da natureza,
deveria pagar uma prenda ao orixá que a possuísse.
Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa
que fosse da predileção do orixá.
Os orixás, que tudo ouviram em silêncio,
começaram a gritar e a dançar de alegria,
fazendo um grande alarido na corte.
Olodumare pediu silêncio,
ainda não havia terminado.
Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições.
Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra,
o mundo no qual os humanos viviam
e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais
que deveriam ofertar aos orixás.
Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra.
Quem seria? perguntavam-se todos?
"Onilé", respondeu Olodumare.
"Onilé?" todos se espantaram.
Como, se ela nem sequer viera à grande reunião?
Nenhum dos presentes a vira até então.
Nenhum sequer notara sua ausência.
"Pois Onilé está entre nós", disse Olodumare
e mandou que todos olhassem no fundo da cova,
onde se abrigava, vestida de terra, a discreta e recatada filha.
Ali estava Onilé, em sua roupa de terra.
Onilé, a que também foi chamada de Ilê, a casa, o planeta.
Olodumare disse que cada um que habitava a Terra
pagasse tributo a Onilé,
pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa.
A humanidade não sobreviveria sem Onilé.
Afinal, onde ficava cada uma das riquezas
que Olodumare partilhara com filhos orixás?
"Tudo está na Terra", disse Olodumare.
"O mar e os rios, o ferro e o ouro,
Os animais e as plantas, tudo", continuou.
"Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris,
tudo existe porque a Terra existe,
assim como as coisas criadas para controlar os homens
e os outros seres vivos que habitam o planeta,
como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte".
Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé,
foi a sentença final de Olodumare.
Onilé, orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros,
pois deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos,
pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem.
Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre,
para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído.
Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare.
Todos os orixás aclamaram Onilé.
Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.
E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos orixás.
Cultuada discretamente em terreiros antigos da Bahia e em candomblés africanizados, a Mãe Terra desperta curiosidade e interesse entre os seguidores dos orixás, sobretudo entre aqueles que compõem os seguimentos mais intelectualizados da religião. Onilé é assentada num montículo de terra vermelha e acredita-se que guarda o planeta e tudo que há sobre ele, protegendo o mundo em que vivemos e possibilitando a própria vida. Na África, também é chamada Aiê e Ilê, recebendo em sacrifício galinhas, caracóis e tartarugas. Onilé, isto é, a Terra, tem muitos inimigos que a exploram e podem destruí-la. Para muitos seguidores da religião dos orixás, interessados em recuperar a relação orixá-natureza, o culto de Onilé representaria, assim, a preocupação com a preservação da própria humanidade e de tudo que há em seu mundo.
Referências bibliográficas: Oluô Agenor Miranda Rocha e Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás.